Ser artista já não é uma das profissões mais fáceis que existem, e em 2020, seu nível de dificuldade ultrapassou a fase hard de qualquer video game por aí. E o feitiço de transformar momentos de tragédia em mágica pode ser desafiador para qualquer criador, mas o paulistano Ga Setúbal parece estar fazendo isso bem.

Em “Canção de Partida” e “Artéria de Titã”, prévias de seu primeiro disco VIA, previsto para ser lançado em outubro deste ano, o músico, ex-integrante da banda Pitanga em Pé de Amora, consegue realizar o feito de encontrar poesia e arte no cotidiano, contagiando o ouvinte a enxergar cores em um cotidiano que, muitas vezes, pode ressaltar apenas os tons preto e branco da vida.

Em seu mais recente single, “Monolito”, o tema do tempo e da memória são protagonistas da composição, assuntos esses com certeza sendo colocados em xeque durante o isolamento devido ao COVID-19 e sendo mais afetada ainda devido ao apocalipse político que o país enfrenta, como o cantor fala em entrevista para o Mad Sound. “É difícil não pensar em memória diante do governo Bolsonaro que tenta repetidas vezes reescrever a história a seu bel prazer. No que diz respeito ao golpe militar isso já era mais do que claro, mas há inúmeras tentativas de alterar as narrativas para que ele seja lembrado de forma enganosa como o propositor do auxílio emergencial por exemplo, ou simplesmente mudando o nome de antigas políticas do PT. Em momentos como esse em que a mentira é política de estado, a memória é tudo que a gente tem. Uma pena que o Brasil apaga sua história em vários momentos.”

“Diante do isolamento creio que me vem esses pensamentos por conta da sensação de impotência e desarticulação. Por isso me flagro pensando se conseguiremos contar a história da pandemia como ela realmente foi”, compartilha o cantor.

Os visuais de “Monolito” ressaltam o assunto presente na faixa, em um belíssimo clipe produzido pelo diretor e artísta plástico Deco Farkas, em que cenas de nostalgia no cotidiano se tornam pinturas em nossa mente. “Usamos como referência para as animações de Monolito o trabalho do artista Jack Fried, que usa muito essa técnica de ir passando por cima do próprio desenho, e assim, deixando o rastro dos frames anteriores no papel. Originalmente creio que a técnica em si pressupõe o preto e branco por deixar o rastro cinza e não um borrão colorido. Acho também que ele usa lápis e borracha, por isso as cores. Essa ideia de que as coisas se transformam e deixam suas marcas pelo percurso está muito presente na letra e veio muito a calhar na técnica da animação.”

“Nossas memórias não são nítidas, elas são um pouco desbotadas, como se tivessem um filtro”, conta Ga. “Nesse sentido acho que usar o preto e branco e a ausência de rosto nos personagens em vários momentos, é uma boa representação dessas memórias.”

Com referências sonoras desde lendas da MPB como Gilberto Gil, até novos rostos como Luiza Lian, que participa da faixa “Volúpia”, no novo disco de Setúbal, o artista prepara os ouvintes para embarcar em VIA, e conta o que podemos esperar de seu aguardado debut solo. “VIA é meu primeiro disco e por isso tem músicas de épocas diferentes, algumas delas são as primeiras canções que escrevi a letra, mas a fio condutor de tudo são as ideias de tempo, transformação e percurso. Esses conceitos aparecem também na produção das músicas que apresentam elementos de várias épocas diferentes da música. Sons dos anos 60, 70 e 80, além de coisas bastante contemporâneas também como beats e samples.”

“Nele misturamos elementos da música eletrônica em contraposição a canção de maneira bastante sutil, de forma que a melodia e a letra conduzem tudo, e mesmo com os vários elementos eletrônicos, a canção popular ainda se sobressai. É um disco produzido em três cabeças bem diferentes, eu, Lourenço Rebetez e Charles Tixier. Por isso ele abarca muitas referências distantes e que fazem dele um som bastante autêntico.”