Texto por: Julia de Camillo

A pausa na carreira do Keane em 2013 veio logo após outro grande rompimento na vida de Tim Rice-Oxley, tecladista e letrista da banda. No ano anterior, ele enfrentava o fim de um casamento de sete anos. “Foi só em 2016 que comecei a escrever sobre isso. Não sei o porquê, acho que é só como meu cérebro funciona”, ele explica em entrevista ao Mad Sound

Tim mostrou algumas dessas músicas para Tom Chaplin, vocalista do grupo, que ficou impressionado. “A intenção não era criar algo do Keane, mas ele disse que gostou muito das canções e que gostaria de fazer um álbum.” Foi esse o pontapé inicial da jornada que culminou no aguardado retorno do Keane e no novo disco, Cause and Effect, lançado em setembro deste ano. “Eu meio que sentia que estava na hora, mas foi inesperado, de certa forma”, detalha Tim.

Cause and Effect é um trabalho de grande peso emocional, explorando os vários momentos e sentimentos do término de Tim. “Cada música é como uma pequena parte daquela história, eu diria que é um álbum muito coeso. Para mim, é o nosso disco mais coeso e, provavelmente, o mais autêntico.” Mas, ao contrário do que pode parecer, a gravação e produção do projeto foi leve para os integrantes da banda. “A primeira coisa que dissemos é que gostaríamos que fosse um processo divertido”, diz Tim.

Além disso, a banda buscou priorizar a visão artística que possuíam acima das influências externas. “Queríamos ter certeza de que a força da música estivesse no conteúdo emocional, então era muito importante preservar essa integridade na hora de gravar.” Isso implica, em parte, deixar de lado a pressão para atingir o sucesso comercial. “Para nós, a autenticidade era o mais importante. Acho que é por isso que, para mim, esse disco é um sucesso. Eu nem sei quantas cópias vendemos e eu não me importo mais, acho que nenhum de nós se importa”, o tecladista desenvolve.

“Acho que, quando você volta como uma banda, a única chance que você tem de ser bem-sucedido é fazer música boa, e não tentar recapturar algo do passado. É perigoso tentar ser igual aos jovens que são 20 anos mais novos que eu. Então, você precisa tentar fazer algo que é verdadeiro para você e é isso que a gente tem feito, provavelmente mais do que nunca, e eu sinto que as pessoas responderam muito bem a isso”, finaliza.

Quem estava no Espaço das Américas, em São Paulo, no último domingo, dia 1º, quando o Keane subiu ao palco para encerrar o giro pela América Latina, viu de pertinho o quão bem o público recebeu as escolhas criativas da banda. Com capacidade para cerca de 8 mil pessoas, a casa de shows estava recheada de fãs do grupo inglês. 

Além de Tim e Tom, o baixista e guitarrista Jesse Quin e o baterista Richard Hughes receberam a energia brasileira com carisma e entusiasmo equivalentes, e encontraram uma multidão já aquecida depois do show de abertura do Terno Rei. Após dar início ao show com “Disconnected”, de Strangeland (2012), Tom fez a primeira de inúmeras interações com o público da noite: “Nós queremos que esta seja a noite mais especial da turnê, e acho que vocês podem ajudar com isso.”

A setlist não poderia deixar de incluir grandes sucessos da carreira da banda, como “Everybody’s Changing”, “Is It Any Wonder?”, “Perfect Symmetry”, “This Is The Last Time”, “Somewhere Only We Know”, “Crystal Ball” e “Sovereign Light Café”, que encerrou o show. Uma boa quantidade de músicas de Cause and Effect entraram para a seleção – “Phases”, “Put The Radio On”, “Strange Room”, “Stupid Things”, “Love Too Much, “The Way I Feel” e “I Need Your Love” -, sendo que todas causaram furor no público. 

Ao longo de aproximadamente duas horas e vinte minutos, o Keane, liderado por Tom, comandou a atenção da plateia de uma maneira impressionante. A troca entre banda e fãs foi memorável e as brincadeiras foram muitas: em “Put The Radio On”, de Cause and Effect, Tom avistou uma plaquinha de um fã em que se lia “Liga o radinho” e se divertiu com ao tentar pronunciar essa espécie de versão em português do título da música.

No entanto, também houve momentos emocionantes. Antes de “Bad Dream”, faixa do aclamado Under the Iron Sea (2006), Tom falou um pouco de uma fã que estava no meet and greet pouco antes do show. “A próxima música foi, infelizmente, a trilha sonora do dia em que a mãe dela faleceu e foi uma música que ela ouviu repetidamente naquele dia. Honestamente significa muito para nós, enquanto banda, que a nossa música possa tocar a vida de vocês dessa forma. Então nós somos muito gratos e gostaríamos de dedicar esta música a ela.”

Tim ressalta esse sentimento de gratidão durante a entrevista. “Eu me sinto muito orgulhoso e grato, mais do que nunca, na verdade. Ainda mais nesta turnê, porque os fãs são muito loucos, especialmente no Brasil”, ele diz, entre risos, ao relembrar a jornada do Keane. “Nós tivemos shows ótimos nesta turnê e, às vezes, quando tocamos músicas antigas como ‘Somewhere Only We Know’ e ‘This Is The Last Time’, é engraçado, porque tocávamos essas músicas em bares pequenos de Londres para, tipo, cinco pessoas.”

“Nós ainda somos as mesmas pessoas e eu acho que é tudo muito louco, ainda estamos aqui mais de 15 anos depois”, Tim reflete. Subir no palco e revisitar toda uma discografia e jornada com a banda pode ser uma experiência intensa, mas o tecladista aprendeu a aproveitar ao máximo. “Nós ficamos pensando ‘como diabos chegamos aqui?’ Acho que agora nós sentimos mais esses momentos e apenas olhamos para o público e pensamos ‘isso é incrível’. Nos sentimos muito sortudos.”

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Setlist do Keane 
Disconnected
Bend and Break
Silenced By The Night
Phases
Put The Radio On
Everybody’s Changing
Is It Any Wonder?
Strange Room
Leaving So Soon
Stupid Things
She Has No Time
Spiralling
Perfect Symmetry
Try Again
Nothing In My Way
You Are Young
A Bad Dream
Love Too Much
This Is The Last Time
Bedshaped
The Way I Feel
Somewhere Only We Know
I Need Your Love
The Lovers Are Losing
Crystal Ball
Sovereign Light Café

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Categorias: Entrevistas Resenhas