Fruto de parceria com DJ Nyack, após contato intenso com artistas da música hip-hop e do rap em terras paulistas, a baiana Luedji Luna lançou o EP Mundo (2019). Esse conta com releituras de cinco músicas do primeiro disco, Um Corpo no Mundo (2017), com participações da cena do rap nacional. 

Na última sexta, 7, foi a vez de apresentá-lo ao público na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro, com participações mais do que especiais: os beats eletrônicos de DJ Nyack foram acompanhados pelas vozes de MV Bill, Stefanie e Zudizilla. Além disso, o baixo, piano e bateria marcaram forte presença no show.

O instrumental de “Acalanto” foi responsável por abrir o evento, ainda sem Luedji no palco. DJ Nyack apresenta a banda logo no início, quando finalmente grita: “Diretamente de Salvador, Luedji Luna!”. As mãos da cantora dançam, expressando toda a sua leveza e emoção de estar cantando na Fundição Progresso pela primeira vez. 

Já na terceira música, a primeira participação manifesta algo que se estende durante toda a apresentação: o rap nacional acompanhado de sua importância social e potência revolucionária. “Essa canção sempre me toca quando eu canto, sobretudo nesse Rio de Janeiro. Dedico às mães pretas que perderam seus filhos para a violência policial”, disse Luedji enquanto o instrumental vibrava estrondosamente. MC Stefanie entra no palco colaborando na faixa “Cabô”. Logo após, Stefanie apresenta o seu rap “Mulher MC”, ressaltando a representatividade de mulheres mães, negras e MCs. “Quem gosta de ver mina cantando rap faz barulho!”, exclamou Stefanie.

Falando sobre resistência, Luedji introduz a música “Malungo” com um discurso essencial sobre o movimento negro. “A primeira república instaurada nas Américas foi feita por uma revolução conduzida por negros escravizados no Haiti. Pouco estudamos sobre a história de resistência, só estudamos a história da dor. Eles querem nos fazer acreditar que nós somos dor, que somos escravos. Mas nós somos filhos de rainhas e reis”. MV Bill incorpora a faixa ao lado da cantora, fazendo o público ficar em êxtase com a presença de um dos nomes mais importantes da história do rap nacional. Em seguida, o rapper conduz um de seus maiores sucessos, a faixa “Marginal Menestrel”, acompanhado da voz de DJ Nyack e com o encerramento de um belo solo de piano. 

O último nome que formou o time de colaborações da noite foi comandado pela voz de Zudizilla, ao som de sua canção “Smooth Operator”. A finalização com um break instrumental impecável abre espaço para “Banho de Folhas”, música de Luedji Luna com a maior quantidade de reproduções. O palco é tomado por uma luz negra, contando novamente com a harmonia entre o rap de Stefanie e a voz potente, mas ao mesmo tempo suave, de Luedji. As cantoras levantam as mãos, fazendo o público interagir de maneira tocante, emocionando até mesmo o baterista, que derruba uma de suas baquetas no meio da canção.

Encerrando a performance, Luedji inicia o monólogo de “Iodo + Now Frágil”, última faixa de Um Corpo no Mundo. Trazendo debates extremamente necessários, fala sobre racismo e encarceramento, LGBTfobia e genocídio. “111 tiros / contra 5 corpos / 111 corpos / mortos / na prisão”, braveja a cantora, que também homenageia Marielle Franco. Todas as participações atuam em comunhão, finalizando o show histórico.

Poucos minutos depois, anunciam a próxima artista, Liniker, que canta o álbum Goela Abaixo (2019). Sua banda, Os Caramelows, abre o show de maneira que precede a essência da apresentação: instrumental carregado de um soul primoroso. Um solo de piano antecede o som do saxofone que conduz a chegada de Liniker ao palco, fazendo o público gritar. Refletores vermelhos e brancos criam uma ambientação carregada de energia – energia essa que transmite todo o espetáculo do grupo que saiu de Araraquara, interior de São Paulo, e alcançou o Brasil inteiro. 

Nessa apresentação, presenciei uma interação com o público que nunca vi antes. A cantora transforma o público em parte da sua banda. Enquanto canta a primeira canção, “Boca”, puxa o barulho das palmas que invadem a Fundição. Liniker dança tão naturalmente, se assemelhando ao modo de como dançamos quando escutamos nossas músicas favoritas e estamos sozinhos em casa. O coro da banda começa a cantar e o saxofone passa a ser substituído por uma flauta transversal em diversos momentos. 

O grande destaque da noite também se deve à percussão eletrizante, que seguia os outros instrumentos e a harmonia do coro. Durante “Caeu”, o público bate palmas em um ritmo intenso, enquanto Liniker brinca com a sua voz em uma improvisação jazzística. Até a guitarra começa a se destacar, realizando riffs responsáveis pelos pulos da plateia. 

“É o nosso maior show no Rio. Hoje celebramos a nossa negritude”, diz a cantora, continuando o legado revolucionário dos discursos de Luedji Luna. “Sou uma travesti cantando sobre meus afetos”. 

“Zero”, maior sucesso do grupo, deixou o local brilhando com as luzes dos celulares levantados, indo de um lado para o outro. A banda é tão poderosa que fez o público gritar antes mesmo da voz de Liniker tomar conta do espaço. 

Dois shows com energias diferentes, mas que se completaram, repletos de discursos valiosos. Luedji Luna e Liniker e Os Caramelows fizeram uma revolução na noite de lua cheia que tomou conta do céu carioca.

Veja logo abaixo os registros incríveis de Bruna Ferrarezi:

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