Se Marisa Monte avisava em 2006 para não se perder em seu “Infinito Particular”, a artista curitibana Vivian Kuczynski aprende, cresce, se perde, mas também se encontra, e nos recebe (virtualmente) em um caos organizado para chamar de seu.

“Não saio do estúdio”, essa é uma das primeiras coisas que Vivian nos conta em entrevista ao Mad Sound. As paredes vermelhas com luzes amareladas dão uma sensação de conforto de prontidão, e é ali que a artista vive durante os últimos meses, segundo ela, cerca de 12 horas por dia, mas garante que a grande quantidade de trabalho corresponde apenas à felicidade. “Eu fiquei muito mais organizada, trabalhando muito mesmo. (…) Não é trabalho, tá ligado? É diversão, eu amo muito o que eu faço, eu fico o dia inteiro girando botão porque é muito massa, cara [risos]” Seu estado, em suas palavras, que discriminalizaram ela ser uma workaholic, pode preocupar quem ouve, no entanto Vivian garante estar se exercitando cinco vezes por semana, comendo bem, andando mais de bicicleta e praticando yoga, e ficando o dia inteiro no estúdio feliz da vida, sem culpa, afinal nada traz mais prazer para ela do que a música.

A organização conquistada pela artista foi muito influenciada pelo processo criativo de seu último projeto, o EP N ENTENDI ND, lançado em agosto via Balaclava Records. Segundo Vivian, que reforça ao enaltecer sua própria organização, que não é virginiana, teve a ideia do EP em maio, com a deadline pessoal do trabalho estar pronto na primeira semana de junho. Na época, ela estava trabalhando em seu próximo disco, que tem previsão de lançamento para o primeiro semestre de 2021, e já estava com alguams músicas prontas, além do mais, a artista não queria que só uma única música fosse lançada este ano, a ótima “Louder Than Words”, em colaboração com Gustavo Bertoni.

O projeto a ensinou muito também no âmbito musical. Com muitas influências eletrônicas de Flume a SOPHIE, campo que ela não estava muito familiarizada antes, a artista aprendeu a observar todos os detalhes que uma música do gênero precisa, como “uma coisinha nova a cada cinco, dez segundos para prender a atenção do ouvinte e não ficar tipo uma música trance”, ela brinca, e buscar soluções rápidas para problemas que possam acontecer no meio da produção.

Do indie ao eletrônico: o que vem em seguida para Vivian, e o que não sai de seus ouvidos nos últimos meses? Além de nomes como Joji e James Blake, que se aproximam mais de seu som usual, ela admite: “Ai, mano. É MUITA coisa! [risos] Porque tipo, além das músicas que eu gosto de ouvir, de ficar de boa, tirar uma pira assim. Eu escuto tudo, cara. Tipo, toda semana eu abro o Top 50 e escuto as dez mais tocadas, do Brasil e do mundo, porque eu acho importante saber o que tá acontecendo na indústria que a galera tá ouvindo, e de alguma maneira eu tenho que colocar isso nas minhas músicas, por mais que não pareça.”

A artista até pode surpreender ao declarar seu amor incondicional por música pop, destacando suas artistas mais ouvidas recentemente, como Dua Lipa, e no Brasil, Anitta e muita Pabllo Vittar, com destaque para o disco de 2018, Não Para Não, mas adianta que seu novo álbum irá mostrar sua natureza mais pop de uma maneira inédita. Pensando em um gênero que não seja atraente de modo tão natural como o pop, Vivian admite que de vez em quando até se força um pouco a ouvir sertanejo, se atentando sempre à composição das faixas, de natureza tão explícita do sentimento que está sendo narrado, que o ouvinte consegue sentir aquela dor instantaneamente.

O estudo entre diferentes gêneros já realizado pela artista tem seu horizonte destinado à um ambiente não muito familiar aos grandes músicos e profissionais de som do Brasil: a academia. Vivian, aos 17 anos, está na fase de prestar o vestibular, e apesar de algumas crises existenciais sobre o assunto com medo de perder trabalhos importantes como produtora em São Paulo no futuro, como os que estão surgindo atualmente com grandes nomes, ganhou o conselho do amigo Dudu Marote, produtor do Skank, a relembrando da plataforma que a artista possui, e da missão que ela tem de incluir mais mulheres na produção musical inclusive pelo âmbito acadêmico. “É isso que o Brasil peca muito no ramo do audiovisual, porque é tão informal. Os maiores profissionais de áudio, engenharia e mixagem, não fizeram graduação, e como eles não fizeram graduação, eles não podem entrar no meio acadêmico. Então o meio acadêmico sempre vai estar pecando nesse ensino…”

“Mas eu tenho vontade de num futuro muito distante, talvez entrar no meio acadêmico e reestruturar esse ensino de produção musical do Brasil”, ela conta. “Como a gente vai avançar no nosso país com faculdades tipo, fracas, entendeu? E gringo tá fazendo faculdade, cara, tá fazendo Berklee, por que a gente não pode fazer também?”

As palavras sábias de amigos ajudaram e ainda ajudarão muito Vivian em diversos momentos, mas de vez em quando uma mãozinha do plano não material, por assim dizer, é sempre bem vinda, na vida e até no processo criativo. E foram nas cartas de tarot de Papisa que a artista confirmou: está tudo certo, é só deixar fluir. De certa forma, o diagnóstico é inegável, ao observar o amadurecimento e dedicação de Vivian como cantora e produtora, e mais do que isso, como uma genuína apaixonada pela música, faz parecer pouco provável que, seja nos palcos, no estúdio, ou até na sala de aula, não iremos continuar observando seu nome brilhar nas estrelas.