Joyce Manor, banda norte-americana de punk rock, lançou em 30 de janeiro, seu sétimo álbum de estúdio, I Used To Go To This Bar.
Produzido pelo lendário guitarrista do Bad Religion, Brett Gurewitz, I Used to Go To This Bar foi eleito como “um dos álbuns mais aguardados de 2025” por revistas como Pitchfork e Rolling Stone.
O Mad Sound conversou com a formação completa do grupo, o vocalista e guitarrista Barry Johnson, o guitarrista Chase Knobbe e o baixista Matt Ebert. Os integrantes comentaram sobre a recepção do álbum, o legado da banda na cena punk e mais. O grupo ainda falou sobre a possibilidade de retornar ao Brasil no futuro. Leia na íntegra.
Mad Sound: O álbum já está disponível desde o dia 30 de janeiro. Como está sendo acompanhar a reação dos fãs agora que finalmente as novas músicas foram lançadas?
Chase Knobbe: Tem sido um grande alívio. Gosto muito do álbum, sinto que todos nós realmente nos colocamos muito nele. Estamos todos muito orgulhosos. Teria me sentido assim de qualquer forma. Mas foi muito bom ver que ele foi tão bem recebido e que as pessoas têm sido tão gentis e elogiosas ao dizer que gostaram.
Matt Ebert: É como uma fase estranha de transição, meio que em compasso de espera. O disco já saiu há algumas semanas e parece que as pessoas estão realmente gostando e ouvindo. Mas ainda não tocamos nenhuma das músicas ao vivo. Sinto que estou louco para tocar essas músicas ao vivo, ir para o meio do público e ver como elas realmente funcionam. Vou entrar na roda.
Barry Johnson: Ele está louco para entrar na roda (risos).
Matt: Estou louco para entrar na roda (risos).
MS: O título I Used To Go To This Bar traz uma sensação bastante nostálgica. Esse sentimento de “olhar para o passado” está mais relacionado à falta de lugares físicos ou de quem vocês eram quando iam para esses locais?
Barry: Acho que é sobre lembrar como era ser jovem e não ter absolutamente nenhum dinheiro e nenhum tipo de otimismo real em relação ao seu futuro, e não romantizar nem sentir saudade daquela época de forma alguma, mas, com a distância, acabar tendo uma certa sensação aconchegante e reconfortante, embora meio morna. Não é algo do tipo “aqueles eram os melhores dias da minha vida, cara”. E nem como o Uncle Rico [personagem do filme Napoleon Dynamite (2004)] dizendo: “Eu daria qualquer coisa para voltar”, algo desse jeito. É como…
Chase: Voltar lá para finalmente conquistar aquela montanha inteira.
Barry: Exatamente isso (risos). É mais um reconhecimento do passado do que algo como “ah, meus dias de glória”. Mas eu já estou ficando meio velho, então tenho o direito de lembrar de quando eu tinha 20 anos, caso eu queira (risos).
MS: “All My Friends Are So Depressed” aborda um tópico muito discutido na geração atual: A saúde mental. Qual é o principal desafio em escrever músicas sobre esse tema sem perder os elementos que caracterizam o som de vocês?
Barry: Tenho três amigos próximos com quem saio o tempo todo, e todos eles ficam bem brutalmente deprimidos de vez em quando, sabe (risos)? Então é um sentimento pra valer. Não acho que seja uma música particularmente pesada. Sinto que ela é meio boba, mas ao mesmo tempo fica real com isso. Fica meio crua ao falar sobre não conseguir nem se vestir e coisas assim. Acho que as pessoas se identificam com isso. Mas também tem umas linhas meio engraçadas. Talvez seja um tipo de humor ácido, algo assim. Não quero ouvir uma música que seja só algum idiota reclamando da própria vida patética, sabe? Eu gosto que tenha um pouco de humor ou alguma coisa a mais.
MS: Como foi o processo de resgatar demos antigas e modificá-las para essa sonoridade que ouvimos no álbum?
Barry: Fazemos isso em todos os discos, para ser sincero. Até o primeiro álbum conta com músicas retrabalhadas. Eu gosto de editar. Faço muito isso nas minhas músicas. Tento deixá-las o melhor possível. Então muita coisa acaba sendo cortada. E quando isso acontece, não é simplesmente jogada fora, vai para uma espécie de “cesto de ideias”. A essa altura, isso acabou virando quase uma colagem. Acumulei tantas ideias não usadas ao longo dos anos, que quando estou trabalhando numa música nova e sinto que o verso não está tão bom, simplesmente jogo fora e pego outro para ver se funciona.
Às vezes testo cinco ou seis diferentes. E um deles simplesmente encaixa melodicamente e liricamente, sabe? No fim das contas, eu já canto sobre as mesmas coisas o tempo todo. Então, de certa forma, fica mais interessante, tipo: “Caramba, essa letra de verso ao lado desse refrão ficou interessante”, algo assim. Não sei, é meio que um truque que descobri para ajudar a despertar ideias novas. E às vezes, eu penso: “Gosto dessas letras juntas”, mas preciso mudar uma ou duas coisas para fazer sentido ou ter continuidade. Então é só um exercício para manter as ideias frescas, sabe?
MS: Vocês trabalharam com o Brett Gurewitz (Bad Religion) na produção deste álbum. Como foi dividir o estúdio com um dos principais guitarristas da história do punk?
Matt: Foi incrível. Eu acho especificamente, o que o Brett consegue tirar das guitarras no estúdio é um reflexo das muitas décadas de sua experiência como guitarrista e gravando bandas. A forma como ele nos produziu sonoramente obviamente teve um impacto enorme em como o disco acabou ficando. Com certeza isso mudou as músicas para melhor.
Barry: Sábio
Matt: É, muito sábio.
MS: Vocês ajudaram a definir e consolidar o punk da década de 2010. Como vocês enxergam a cena atualmente e o papel que o Joyce Manor exerce nela hoje?
Matt: Acho muito empolgante ver bandas surgindo com metade da nossa idade e que foram influenciadas por nós. Ver bandas jovens fazendo versões das nossas músicas sempre foi algo muito emocionante para mim. Dá a sensação de que agora somos uma geração mais velha em relação a toda essa nova leva de bandas que estão realmente inspiradas pelo que a gente fez.
Barry: Somos a velha guarda agora.
Matt: Somos a velha guarda agora.
Barry: É legal. Acho que nós, o The Hotelier e o Title Fight fomos uma onda de bandas de pop punk que começaram a chamar talvez um pouco de atenção no mundo dos críticos musicais. Historicamente não acontecia com o pop punk. Normalmente, esse gênero não é levado muito a sério e é visto como algo juvenil, que você cresce e o deixa para trás. Mas acho que havia toda uma leva de bandas que tinham uma afinidade verdadeira com ele. Algo muito querido para elas. E todos nós meio que percebemos essa abertura de pensamento: “Não, pop punk é a melhor música de todas”. E há uma forma de fazer isso, explorar o gênero de maneiras que vão além do que normalmente era feito. Dá para fazer coisas interessantes no pop punk. Sinto que, ao mesmo tempo, houve uma leva de bandas fazendo exatamente isso.
MS: E falando sobre essa pegada pop, percebi que muitas das músicas têm melodias pop muito cativantes dentro da urgência do punk. Qual seria a música pop definitiva que vocês gostariam de ter escrito?
Matt: A música pop definitiva?
Barry: Qual seria um hit pop que você gostaria de ter escrito?
Matt: Oh, meu Deus.
Chase: Meio que considero “Goodbye Horses” [da cantora Q Lazzarus] uma música legal. A estrutura dela é interessante, pois o refrão só aparece no final, e vai se construindo de uma forma muito bacana. Então, de certa forma, isso sempre pareceu uma escolha meio subversiva e mais punk para uma música que é tão popular. À primeira vista, parece convencional, mas quando você realmente observa cada arranjo, é uma música bem interessante.
Barry: Para mim, “Helena”, do My Chemical Romance. Nós fizemos uma versão dessa música. Acho que já escrevemos algumas músicas boas ao longo dos anos Mas eu literalmente trocaria toda a discografia do Joyce Manor só por “Helena” (risos). Só me deixa ter essa. É uma música incrível.
Matt: Essa é uma boa música. Acho que “Just Like Heaven” ou “Friday I’m in Love”, do The Cure, são hits bem pop da banda. Simplesmente as melhores músicas de todos os tempos. Você nunca se cansa de ouvi-las. São perfeitas.
Barry: Também vou dizer “Dancing With Myself”, do Generation X. Essa é sensacional.
MS: Os fãs da banda são conhecidos por fazerem muitas tatuagens das músicas de vocês, especialmente “Constant Headache” ou “Catalina Fight Song”. Qual música deste novo álbum é a aposta de vocês para virar a próxima tatuagem a ser feita por eles?
Barry: “The Opossum”.
Chase: Espero que as pessoas façam gambás. Acho que já estão até fazendo. Todos nós temos gambás tatuados nos braços. Nem sei onde está o meu.
Matt: O meu está num lugar inacessível. Está na minha bunda.
Barry: O Matt acabou fazendo uma tatuagem do INXS em vez disso (risos).
MS: Barry, você mencionou anteriormente que “Well, Whatever It Was” seria a trilha sonora perfeita para um filme do Shrek. Em qual cena você imagina ela tocando?
Barry: Eu nunca vi Shrek na minha vida, mas conheço o Bastardo Verde. Sei o tipo das músicas que ele gosta. Mas eu nunca assisti Shrek.
Matt: A comparação está certa (risos).
Barry: Então não sei qual cena. Não faço ideia.
Matt: Ele mora em um pântano.
Barry: Ele está tentando conquistar alguma princesa. Ele é legal. É tipo um ogro amigável. Não sei.
Chase: Todo mundo tem medo dele porque ele é um ogro
Barry: O Burro dirige um Uber ou algo assim no novo filme. Então essa é a cena que imaginei (risos). É o que acho. Ele está passando por dificuldades e “Well, Whatever It Was” toca durante essa cena.
MS: Se o Joyce Manor fosse convidado para fazer a trilha sonora inteira de um filme, qual gênero vocês gostariam que fosse?
Barry: Shrek (risos).
Matt: Acho que algo como um thriller de ação super acelerado
Chase: Seria legal estar em um filme dos Irmãos Farrelly e escrever as músicas, tipo nas cenas cortadas em que eles estão numa viagem de carro ou algo assim. Tipo Debi & Lóide.
Barry: Cody (2016) meio que me passa uma vibe de Debi & Lóide.
Chase: Passa mesmo
Barry: Eu assisto Debi & Lóide o tempo todo. Gosto bastante.
Matt: Eu também.
Chase: Vou dizer que eu também.
MS: Em 2024, vocês vieram ao Brasil pela primeira vez. O que acharam do país?
Matt: Incrível.
Barry: Público incrível
Matt: Tanta gente incrível e empolgada nos shows. Nunca vi ninguém tão animado por nos ver em algum lugar.
Barry: Sim, foi muito bom
MS: Planejam voltar em breve?
Matt: Sim, no próximo ano, se tudo der certo
Barry: Próximo ano, com certeza.
MS: Para finalizarmos, vocês poderiam enviar um recado para os fãs brasileiros do Joyce Manor?
Matt: Ouçam nosso novo álbum e nos vemos em breve. No próximo ano, espero.
Barry: Vocês são um dos melhores públicos que existem. As pessoas nos disseram que o público brasileiro seria apaixonado. Superou até o que eu esperava. A demonstração de carinho dos fãs brasileiros foi realmente incrível e emocionante. Mal posso esperar para voltar e tocar novamente.
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