Ícone do site Mad Sound

T.S.O.L. Créditos: Divulgação

T.S.O.L. e Adolescents se apresentam nesse final de semana em São Paulo; confira entrevista com Jack Grisham

As bandas se apresentam neste sábado, 29, no Cine Joia

Texto por: Camila Pazini

Uma linha fina conectava o clima ensolarado da Costa Oeste ao niilismo juvenil crescente do meio para o final dos anos 1970 e ao governo conservador de Ronald Reagan no começo dos anos 1980. Esse foi o pano de fundo de um cenário pulsante, mais violento e mais engajado politicamente, no qual cresceram bandas emblemáticas do hardcore punk. Uma nova onda, um novo levante de resistência contra o status quo. A iconografia do choque pelo choque havia crescido e morrido em becos labirínticos que levavam a um letreiro rosa-choque na King’s Road, em Londres, e os spikes precisaram ficar ainda mais afiados no meio contracultural para contra-atacar os moldes engessados da sociedade à época.

Foi nesse caldeirão que emergiram nomes fundamentais da cena, entre eles os emblemáticos Adolescents, e também o T.S.O.L., com toda a sua nuance sonora, que após 40 anos em atividade permanecem mais relevantes do que nunca. Os conterrâneos, que já haviam se unido em outras ocasiões para tocar juntos, desta vez se apresentam no festival Rockside, produzido pela NPD Productions e pela Magnetar. O show acontece neste sábado (29), no Cine Joia, com a adição da banda nacional Treva, que bebe tanto das fontes do punk rock quanto de outros gêneros musicais, para abrir os trabalhos da noite.

Após tantos anos na estrada, experimentações de sonoridade, fragmentação de integrantes e volta de membros originais, o T.S.O.L se apresenta pela terceira vez no Brasil. Em entrevista exclusiva para o Mad Sound, Jack Grisham, vocalista e membro original do grupo, nos contou, de forma tanto descontraída quanto incisiva, sobre a efervescência e a obscuridade do cenário musical da Califórnia nos tempos áureos, sobre influências musicais inusitadas, além de ressaltar o espírito de liberdade, de união, dentro do punk rock e mandar um recado bem especial para os fãs brasileiros – compensando, talvez, uma notícia triste que você pode conferir abaixo.

Mad Sound: Vocês começaram na Califórnia justamente quando a cena do hardcore punk estava se formando. O que fez você se inclinar para um som mais sombrio enquanto estava cercado por uma cidade litorânea e por um ambiente musical totalmente diferente? Essa direção foi natural para você?

Jack GrishamEntão, nós vivíamos na praia. Eu sou de Long Beach. Aqui está Los Angeles, aqui está Orange County, e Long Beach fica bem no meio. Era um lugar mais sombrio do que a praia em si. Long Beach se conecta mais com LA, tem uma vibe mais obscura. Eu cresci com aquele punk rock mais malvado, se é isso que ele era. Meio sombrio, meio perverso. E eu sempre fui assim; desde garoto me metia em encrenca. Eu nem necessariamente gostava de punk rock, mas era uma ótima trilha sonora para crimes. Se você pensa bem, andando por aí… (faz o som de um solo de guitarra) E, sabe, eu era estúpido, um idiota. Eu assistia filmes e acreditava neles. Lia os livros e acreditava também. Eu estava meio desconectado da realidade, andando sorrateiramente por aí, roubando túmulos, fazendo bombas. O que fosse. Para mim, tudo parecia fantástico. Parecia que eu estava vivendo dentro de um filme de terror, só que era minha vida de verdade. Era real, mas nem sempre bonito. Quando você vive desse jeito, acorda com muitos problemas.

MS: Quais influências musicais te empurraram na direção dessa sonoridade mais sombria, que, futuramente ia se chamar post-punk e de seus primeiros desdobramentos?

JG: Isso é engraçado, porque minhas influências musicais não têm absolutamente nada a ver com o som que eu faço. É como se eu fosse um padeiro que assa bolos, tortas e cookies, mas minhas influências fossem churrasco. Então, minhas influências eram Motown, soul, toda aquela música dos anos 1970, música negra, música soul norte-americana. Era isso que eu ouvia, esse era meu mundo musical. Mas eu sou um garoto branco que não canta. Então, basicamente… se eu quero subir num palco e fazer alguma coisa, mas não posso cantar soul music, então vou cantar punk rock. Isso eu faço muito bem.

MS: Cada álbum trouxe um tipo de reinvenção, mas a banda sempre manteve aquele espírito confrontador do hardcore punk. Como você enxerga a evolução do seu som ao longo desses anos?

JG: Precisa voltar à definição de “punk”. O que é isso? É só um estilo? Se você usa uma jaqueta de couro, você é punk?! Mas espera aí: Michael Jackson usava jaqueta de couro e não era punk. Como é o nome daqueles caras do Nsync? Ou sei lá, New Kids on the Block, alguma merda assim. Eles também usavam jaqueta de couro. Então é o som? É a roupa? Eu conheço caras que tocam punk rock e que parecem tudo, menos punks. Para mim, punk sempre foi uma atitude. Uma atitude de ninguém estar acima de ninguém. Uma atitude quase socialista. Somos todos iguais, ninguém manda em ninguém. Sem mestres, sem lordes, sem propriedade. É algo lado a lado. Eu sempre vi o punk rock como um espaço em que você pode tudo. Pode se vestir como quiser, tocar o que quiser. Está tudo na cabeça e na atitude, desde que você continue humilde. E desde que inclua todo mundo e não se leve tão a sério. É estar disposto a se divertir, a zoar. Tipo: “Ei, você está numa banda punk, você não curou o câncer.” Sabe? Relaxa. Isso é punk pra mim.

Então nós mudamos bastante, experimentamos coisas. Tipo: vamos tentar isso, tentar aquilo. Sempre foi sobre se manter aberto à mudança. A vida é mudança. A vida respira, se move. Se não faz isso, fica estagnada, é como a morte. Eu vi caras literalmente ainda fazendo a mesma coisa que faziam há 40 anos. E penso: “Como você acha que isso é punk?” A única coisa punk nisso é que você ainda usa as mesmas roupas rasgadas dos seus 16 anos. Isso é punk, senhor, mas não de um jeito bom.

MS: O álbum mais recente de vocês é A-side Graffiti, de 2024. Você vê novas músicas chegando no futuro próximo?

JG: Infelizmente acho que o TSOL fez seu último álbum, porque estamos ficando velhos. Somos velhos mesmo, sem dúvidas, então estamos seguindo em frente. Depois de janeiro, vamos tirar uma grande pausa.

MS: O T.S.O.L. influenciou tantas bandas ao redor do mundo. Como artistas e também como fãs, como vocês enxergam essa ideia de “imortalidade musical”, com músicas escritas décadas atrás ainda significando tanto no momento político e cultural atual?

JG:  Uma criança me perguntou: “Como sua visão política mudou agora que você está velho?”. Honestamente, eu ainda acho que não tenho liberdade total. Em relação a governos, nada mudou. Não mudou muita coisa mesmo. É estranho… nós nunca pensamos que isso ainda estaria acontecendo. Eu achava que estaria morto. Disse isso para o meu irmão quando tinha uns 23 anos. E ele respondeu: “Você é um perdedor. Não acredito que você ainda esteja vivo.” Eu era só um jovem punk falando merda.

E agora… o primeiro disco do TSOL saiu em 1981 e estamos indo para 2026. São 45 anos sólidos e as músicas continuam pertinentes como se tivessem sido escritas ontem. A mesma coisa. É louco. E ao mesmo tempo interessante. Sobre influenciar bandas, eu gostaria de ser pago toda vez que alguém diz isso. Me mandem o dinheiro.

MS: Ainda sobre isso, o que você acha que continua conectando o punk rock com novas gerações depois de tanto tempo?

JG: A América pode ser sufocante. Não tem clima nenhum, cara. Tudo muito contido, tudo muito de “guarde suas emoções”. E o legal do punk rock é que… você vê essas crianças preocupadas com como elas soam, como parecem, com o que os amigos pensam. E o punk chega e diz: “Que se dane seus amigos, cara. Quem liga para como você parece?” Você não precisa cantar bem, não precisa ser bonito. Tirando eu, eu sempre pareço bonito. (Risadas) Tô brincando, tô brincando!

Você pode ser você mesmo. Você deixa toda essa porcaria cultural pra trás. Você dança como um idiota e é maravilhoso se soltar. Eu lembro da primeira vez que dancei. Normalmente você pensa num garoto dançando com uma garota. Mas eu dancei com os caras. A gente era só um monte de garotos dançando. E aquilo foi libertador. Eu não precisava parecer legal ou maneiro. Eu podia ser um idiota, rolar no chão, na grama… e isso mudou muito quem eu era e sou. Eu nunca comprei toda aquela merda que esperavam de mim. Punk rock me deu confiança. Tipo: estou usando essas calças, alguém pergunta se eram da minha avó e eu digo: “E daí?” É muito sobre autoaceitação.

MS: A banda já esteve no Brasil algumas vezes, e você veio para cá em uma dessas ocasiões. Quais são suas lembranças mais calorosas e talvez até inesperadas dessa visita?

JG: Para mim, eu só fui uma vez. Houve outras formações, outras histórias, tudo muito louco. Mas eu amei, amei mesmo, os brasileiros. E isso volta ao que eu disse antes: vocês vestem suas emoções à flor da pele. Quando vocês amam, vocês amam com intensidade. Vocês expressam esse amor, essa gentileza, essa emoção. É tudo muito aberto, não é algo escondido. Todo mundo é muito expressivo na forma de falar e se importar. Essa é minha memória favorita do Brasil, as pessoas. Não os shows. Os shows foram bons, tocamos bem, blablabla. Mas, para mim, o mais especial foi fazer amigos, conversar, andar junto, dizer “oi”.

E quando você lembra de turnês, normalmente não são coisas boas. É ônibus quebrado, é quase ser preso, é alarme de hotel disparando. Mas as boas memórias que tenho do Brasil são das pessoas. Dessa energia.

MS: Como foi receber a notícia de que vocês tocariam ao lado dos seus conterrâneos do Adolescents pelo Brasil?

JG: Eu adorei. Conheço esses caras há anos. E, especialmente no sul da Califórnia, todo mundo já tocou na banda do outro. Se você olhar uma árvore genealógica das bandas, é assim: o Rikk Agnew, do Adolescents, tocou no TSOL. O Frank Agnew também. O Jay Bentley, do Bad Religion, já tocou no TSOL. Somos todos amigos, tocamos juntos. O Dan Root, que agora está no Adolescents, já tocou comigo. Todo mundo se conhece. Então quando o telefone tocou e veio essa notícia, foi demais. Vamos tocar com amigos de longa data.

MS: E falando nisso, você chegou a conhecer a cena punk/hardcore de São Paulo? Tem alguma banda local que você gosta ou acompanha?

JG: Não tenho certeza sobre bandas locais agora, porque não acompanho faz tempo. Sempre me perguntam o que estou ouvindo, e a verdade é que não tenho escutado nada há anos porque estou sempre trabalhando. E quando não estou trabalhando, a última coisa que quero é ouvir música. Pense assim: se você é encanador e passa o dia mexendo com privada, a última coisa que quer é pensar em outra privada. Então, quando você toca música, está em turnê ouvindo aquele ‘’bam bam bam’’ o tempo todo, você chega em casa e quer silêncio. Shhh! Só ficar quieto.

MS: Quais são suas expectativas nessa volta a São Paulo? Pode dar algum pequeno spoiler do setlist?

JG: Minhas expectativas são… não ter expectativas. Eu tento não ter, porque nunca sei como vai ser, então é melhor esperar e ver. Sei que vamos fazer um ótimo show. Vai ter bastante coisa da primeira fase da banda, porque é isso que temos tocado, já que vamos tocar com nossos amigos do Adolescents, representando o hardcore punk da Costa Oeste.

MS: Para encerrar, pode deixar uma mensagem para os fãs brasileiros que estão esperando ansiosamente por esse momento?

JG: Me digam ‘’olá’’, essa é minha mensagem! Se você ver um de nós parados por aí, venham nos cumprimentar. Viemos para visitar vocês. Não viemos para estar acima de vocês, para ser idolatrados. Estamos indo para aí para fazer novos amigos. Para mim, é assim que é. Eu quero ouvir sobre onde você mora, como se você estivesse indo para casa de um amigo, sabe?! Viajando ao redor do mundo, eu sempre convidava pessoas para a minha casa. Não sei se acham que estou brincando, ou sei lá, mas uma vez cheguei em casa e recebi uma ligação de uma pessoa da Argentina e ele veio mesmo. E é isso, venha mesmo, cara, e me digam ‘’oi’’ se me virem por aí!

Sair da versão mobile