Tem uma cena que ficou guardada na memória de Josh Homme desde a adolescência em Palm Desert: garotas góticas atrás do balcão de cosméticos da JCPenney, transformando senhoras mais velhas com maquiagem escura. Décadas depois, essa lembrança virou “Where the Goth Girls At?”, o novo single e clipe do Queens of the Stone Age.
A faixa é a terceira amostra de Perfecth, nono álbum de estúdio da banda, que chega em 30 de outubro pela Matador Records. Musicalmente, é um contraste que funciona: riffs secos e diretos que explodem num refrão tomado por cordas e metais, como se a música também estivesse se transformando diante dos olhos de quem ouve.
Mas o coração da canção está em outro lugar. Homme fala sobre aquele momento com uma sinceridade que soa quase confessional: “Observar as garotas góticas trabalhando no balcão da JCPenney e dando transformações góticas nas senhoras mais velhas foi quando percebi que o único lugar em que quero estar é onde as garotas góticas estão”. E completa com a pergunta que dá nome à música em espírito: “O amor adolescente não é grandioso?”
É essa ingenuidade, esse desejo bobo e sincero de pertencer a algo, de impressionar alguém, que a música tenta capturar. Não é sobre gótico como estética. É sobre a idade em que qualquer coisa parecia capaz de mudar sua vida inteira.
“Where the Goth Girls At?” chega depois de “Insignificant Other” e “Easy Street”. No clipe, dirigido por Christopher Gruse e Tony Wolski (a mesma dupla por trás de “Easy Street”), essa transformação ganha corpo. Numa usina elétrica abandonada, as garotas góticas comandam a cena com autoridade e confiança, redesenhando quem cruza seu caminho. O elenco reúne o comediante Steve Agee, a dançarina e artista Scarlett Kapella, a cantora e atriz Lou Lou Safran, os próprios membros da banda e, como não poderia deixar de ser, muita tinta preta.
Por trás de tudo isso está uma ideia que atravessa o álbum inteiro. Produzido por Homme e pelo baixista Michael Shuman, Perfecth foi concebido à luz do kintsugi, a técnica japonesa de reparar cerâmicas quebradas preenchendo as rachaduras com ouro. A crença de que aquilo que se quebrou pode ficar mais bonito justamente por ter sido consertado.
Gravado em sessões espalhadas entre Nova Orleans e Los Angeles, o disco reúne nove músicas que percorrem diferentes formas de amor: o de família, o de amigos, o amor que quebra além do que parecia suportável e o amor que, de algum jeito, remenda de volta. Homme descreve o resultado como algo quase fragmentado de propósito: “Cada música soa como se fosse de um mundo diferente. E isso é de propósito, porque está tentando costurar todas essas emoções que giram em torno do amor, luxúria, tolice e o tipo de sabedoria que vem como um presente de tudo isso”.

