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Deftones. Créditos: Divulgação

3 décadas de música: Deftones chega ao Lollapalooza 2026 no auge da maturidade

Entre reinvenções, perdas e riscos estéticos, a banda prova que maturidade nunca significou acomodação

Texto por: Agatha Flora

Ao longo de mais de 30 anos, o Deftones construiu uma trajetória que desafia rótulos e atravessa gerações. Do enquadramento inicial no nu metal à expansão atmosférica de White Pony (2000), da reconstrução emocional após a perda de Chi Cheng à consolidação criativa em private music (2025), a banda sempre operou na tensão entre peso e delicadeza.

Nesta matéria, percorremos as fases que moldaram essa identidade múltipla para entender por que o grupo chega ao Lollapalooza Brasil 2026 como uma força ainda inquieta, atual e artisticamente relevante.

O rótulo que nunca deu conta

Desde os anos 90, o Deftones carrega um rótulo que nunca deu conta de explicá-los por completo. Associá-los à explosão do nu metal, historicamente, até faz sentido; guitarras graves com a tensão rítmica e uma estética um pouco sombria que dialogava com o espírito da época.

Mas a trajetória do grupo revela algo bem mais complexo. Ao contrário de muitos contemporâneos, o Deftones nunca se acomodou nesse padrão. Sempre houve um interesse por textura, ambiência e dinâmica emocional que expandia os limites do gênero.

Talvez por isso a discografia provoque debates tão intensos entre fãs. Há quem defenda Around the Fur (1997) como ápice juvenil, quem eleja Saturday Night Wrist (2006) como obra-prima incompreendida, e quem veja no disco autointitulado uma fase mais árida e experimental. Raramente há consenso absoluto e é isso que marca o trabalho de Deftones como uma obra viva.

A voz como eixo emocional

No centro dessa identidade está Chino Moreno, um vocalista que desafia a ideia tradicional de frontman do metal. Sua força se mistura com potência e vulnerabilidade.

Chino constrói uma tensão silenciosa. Em “Change (In the House of Flies)”, por exemplo, a narrativa sonora se desenha lentamente, como se a música estivesse à beira de algo inevitável. O sussurro é marcado de forma progressiva até ser liberado completamente.

Suas letras frequentemente partem de imagens oníricas e fragmentadas, oferecendo uma atmosfera única. Essa abertura cria uma experiência íntima, onde cada ouvinte projeta suas próprias inquietações.

White Pony’ e a redefinição do território

Se o início foi promissor, foi com White Pony que o Deftones se deslocou definitivamente do rótulo que o acompanhava. O álbum ampliou o vocabulário sonoro da banda, incorporando camadas eletrônicas, estruturas menos convencionais e uma abordagem mais abstrata.

Ali, o grupo deixou de ser visto apenas como parte de uma cena e passou a ocupar um espaço singular dentro do rock alternativo. O disco mostrou que agressividade e delicadeza não são forças opostas e que podem coexistir na mesma composição. Essa lógica de contraste se tornaria marca registrada.

Um pouco do Pós-Chi Cheng

Após a perda devastadora de Chi Cheng, o Deftones encontrou uma nova estabilidade criativa. Trabalhos como Diamond Eyes (2010) e Koi No Yokan (2012) revelam dois polos distintos de uma mesma identidade.

Diamond Eyes soa denso, direto, quase mineral em sua textura, como uma reafirmação de força após a ruptura. Já Koi No Yokan amplia a sensibilidade melódica, explorando atmosferas mais contemplativas e estruturas que flertam com o pós-rock e o shoegaze. Ambos carregam o DNA da banda, mas mostram como ele pode se manifestar de maneiras diferentes.

Essa capacidade de oscilar entre agressividade e sofisticação consolidou o Deftones como algo além de uma banda de gênero.

Recepção dividida e risco calculado

Curiosamente, nem todos os movimentos receberam aclamação unânime dentro da própria base de fãs. Gore (2016) apresentou uma sonoridade mais difusa, com texturas menos polidas e uma abordagem quase abrasiva em sua mixagem. Para alguns, foi ousadia. Para outros, definitivamente foi um estranhamento.

Ohms (2020) trouxe uma estética futurista, com um brilho quase cibernético nas camadas sonoras, algo que evocava paisagens urbanas e frias. A crítica recebeu bem; parte do público, nem tanto.

Mas essa divisão sempre acompanhou a banda. O Deftones nunca pareceu interessado em agradar unanimemente.

O presente: ‘private music’ e o encontro da maturidade

Com private music, a banda alcança um equilíbrio raro dentro de sua própria discografia. O álbum percorre múltiplos registros sem soar fragmentado. Há momentos que resgatam a energia quase noventista, com riffs mais diretos, vocais com cadência rítmica, e outros que mergulham em atmosferas amplas, quase etéreas. A diversidade não causa estranheza, na verdade, ela domina o álbum.

Em algumas faixas, Moreno explora um fraseado mais cadenciado, próximo da fala rítmica, contrastando com refrões expansivos e melódicos. Em outras, a banda constrói paisagens sonoras que parecem alternar entre expansão e claustrofobia. O jogo entre espaço aberto e confinamento emocional é constante.

Há também um cuidado estrutural evidente. As músicas crescem de forma orgânica, evitando explosões gratuitas. Quando o peso surge, ele assume uma função dramática. E quando a melodia vai para o centro, ela flui.

Com pouco mais de quarenta minutos, o disco prova ser um trabalho de maturidade. Dentro de uma discografia extensa e debatida, private music se posiciona entre os momentos mais consistentes da banda, sendo precisos demais.

Lollapalooza e o retorno de Deftones ao Brasil

É nesse contexto que a confirmação do Deftones como uma das principais atrações do Lollapalooza Brasil 2026 ganha significado especial. A banda chega aos palcos como um grupo ativo, relevante e artisticamente inquieto.

O show acontece no dia 20 de março, no Autódromo de Interlagos, dentro de um line-up que cruza gerações. Com nomes como Sabrina Carpenter, Tyler, The Creator e Skrillex. A presença do Deftones nesse contexto reforça que sua relevância é contemporânea.

A expectativa não gira apenas em torno dos clássicos que moldaram a banda. Setlists recentes indicam que as faixas de private music ocupam espaço central nas apresentações, o que sugere um show voltado para o presente, mas sempre tocando os clássicos históricos.

Esse equilíbrio é crucial. O Deftones de 2026 é um grupo com mais de trinta anos de estrada que continua expandindo o próprio repertório. A recepção madura de private music fortalece essa narrativa.

Há também um componente simbólico nesse retorno. O festival, conhecido por refletir transformações culturais e sonoras, posiciona o Deftones ao lado de artistas que representam a multiplicidade atual da música pop e alternativa. Isso evidencia como o grupo sempre operou nesse espaço híbrido.

Para o público brasileiro, o encontro carrega camadas adicionais. Muitos fãs cresceram com a banda; outros a descobriram recentemente, seja por algoritmos, seja pela revalorização estética de sonoridades densas e emocionais. No Autódromo de Interlagos, essas gerações devem coexistir diante de um mesmo repertório.

Se a discografia do Deftones sempre gerou debates “de qual fase é melhor, qual disco é mais ousado, qual é o mais coeso” o palco do Lolla vai resolver essas divergências de maneira simples: botando todo mundo para cantar no máximo.

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