Texto por: Camila Pazini

Prestes a retornar ao Brasil após um intervalo de dez anos, o Story of the Year integra o line-up da I Wanna Be Tour, que acontece em 30 de agosto nos gramados sintéticos do Allianz Parque. A turnê tem reacendido a chama de bandas que ajudaram a construir e espalhar a cena “emo” pelo mundo, reunindo gerações em torno de canções que ficaram marcadas na memória de uma grande parcela dos jovens adultos de hoje em dia. 

Esse ressurgimento vai além da nostalgia, abarcando todo um leque de subgêneros musicais. Uma forma de contornar a dispersão e falta de sensibilidade em uma era hiperconectada, relembrar os velhos (novos) tempos. Essa movimentação, no entanto, também tem atraído um novo público de ouvintes. Outras gerações que encontram na sonoridade a mesma identificação e conexão que os fãs carregaram através das décadas. 

Era um tempo em que essas bandas saíam dos clubes pequenos, tomavam as rádios e ganhavam espaço na televisão, moldando o olhar e a sensibilidade de toda uma geração – mesmo que, naquela época, tivesse todo um estigma e preconceito com a sensibilidade, ainda mais quando proferida por homens, por exemplo, vítimas de uma masculinidade tóxica causada pelo machismo estrutural. Mostrando que sentir, em médio ou alto nível, nunca estará obsoleto. 

O encontro, tanto dos fãs quanto dos integrantes das bandas que cresceram juntos na estrada, tem como headliner Fall Out Boy, além de shows do Yellowcard, a volta do Good Charlotte e do Fake Number, e outras bandas que consolidaram o subgênero em solo nacional como Fresno, Forfun e Glória

Veteranos na cena, o Story of The Year já tem uma obra musical extensa, com o último álbum, Tear me To Pieces, produzido por Colin Brittain, figura reconhecida no pop punk que também já trabalhou com Papa Roach e A Day To Remember. 

Além de compor o line-up da I Wanna Be Tour, a banda também subirá ao palco do Tokio Marine Hall no dia anterior para um show mais intimista. Em entrevista ao Mad Sound, o vocalista Dan Marsala, que vestia uma camiseta do Operation Ivy, falou sobre suas expectativas para os shows no Brasil, sobre crescer com as bandas que compõem o line up, além de relembrar e comparar como as músicas eram escritas no passado e o que continua no presente. 

Mad Sound: Faz 10 anos desde que vocês vieram pela última vez ao Brasil. O que você se lembra dessa visita e quais são as expectativas para o retorno?

Dan Marsala: Sim, faz bastante tempo… Tivemos ótimos shows aí e adoramos ir ao Brasil. Não sei por que demorou tanto, recebemos algumas propostas, mas não conseguimos fechar um acordo. Agora estamos felizes em voltar, e espero que sejam apresentações incríveis. Serão shows grandes, bem maiores do que os que já fizemos no país, e estou muito animado!

MS: Vocês também vão tocar em side shows em São Paulo, além das datas do festival. Existe alguma preferência por festivais com grande público ou vocês preferem shows mais intimistas, como os side shows?

DM: Na verdade, gosto dos dois, por motivos diferentes. Os grandes festivais são muito divertidos porque você toca para uma multidão enorme, é preciso controlar a plateia de um jeito diferente, e isso é muito empolgante. Já nos shows menores, mais intimistas, a energia costuma ser mais intensa. Ambos são incríveis à sua maneira, então não tenho preferência. Apesar de os shows pequenos geralmente serem mais divertidos, eu amo os grandes também. No fim das contas, fico feliz em tocar em qualquer lugar, desde que as pessoas estejam envolvidas e cantando com a gente.

MS: A ‘’I Wanna Be Tour’’ reúne muitas bandas importantes para a cena. Como é compartilhar o palco com todas essas bandas? Vocês têm uma relação de camaradagem com elas?

DM: Crescemos com a maioria dessas bandas e já estamos na estrada há bastante tempo. Somos bons amigos do Yellowcard, inclusive, fizemos turnê juntos nos últimos anos. Conhecemos os caras do Fall Out Boy também; tocamos juntos na Warped Tour em 2004 e 2005, então nossa história com eles é longa. É como um grande reencontro entre amigos para fazer um baita show.

MS: Como você vê o revival da cena emo e pop punk? O que você acha que motiva tanto as pessoas voltando aos shows quanto os fãs novos descobrindo as músicas dessa geração?

DM: Isso é incrível. A música que ajudamos a criar, a cena da qual fazemos parte, está tendo um ressurgimento e isso é sensacional! Não sei exatamente o motivo, mas sinto que todo gênero musical vem e vai como ondas. Às vezes fica em alta, depois as pessoas se cansam, mas eventualmente volta, porque é a trilha sonora da juventude de muita gente. Isso tem um significado especial para quem cresceu com essas músicas, e acaba inspirando uma nova geração de ouvintes. Fico muito feliz que essa cena tenha continuado viva. Quero tocar músicas pra sempre, sabe? Até o dia em que eu morrer, literalmente.

MS: A banda está na ativa desde os anos 90. O que mudou no processo de composição e gravação desde os primeiros álbuns até o Tear Me to Pieces?

DM: Estamos juntos há uns 24 anos. Essa formação atual existe desde os anos 2000, mas eu e o Ryan já tocávamos juntos desde os anos 90. A principal diferença é que, quando você tem 19 ou 20 anos, entra numa sala com os amigos e faz jam sessions por horas, testando ideias. Naquela época, a banda era tudo pra gente e andávamos de skate, tocávamos música, e era só isso. Hoje, com mais de 40 anos, temos famílias e outras responsabilidades. Nosso processo atual é mais de trocar demos, compartilhar ideias à distância. Não temos mais aquelas jams infinitas, mas ainda escrevemos da mesma forma: se gostamos de algo, seguimos com aquilo. Se não gostamos, deixamos de lado. É simples. Fazemos música para nós mesmos porque amamos isso e isso nunca mudou. Talvez o processo mude com o tempo, mas a essência continua a mesma.

MS: Como é para vocês olhar para trás e ver o impacto de músicas como “Until the Day I Die” em uma geração inteira?

DM: É muito louco. Nos sentimos extremamente sortudos e felizes por ver como as pessoas se conectaram com essa música. Quando a escrevemos, estávamos numa van tentando compor algo legal, e achamos que aquele título era forte. É uma das únicas músicas em que o título veio antes da melodia. Tínhamos a frase “Until the Day I Die” e começamos a tocar. Foi uma das músicas mais fáceis de compor e tudo fluiu naturalmente. E sempre ouvi que as melhores canções são assim, você não pensa demais, apenas sente que é boa. Essa é uma dessas. É uma música simples sobre relacionamento, mas que gerou uma conexão real com as pessoas.

MS: O último disco de vocês foi lançado em 2023. Já existem planos para um novo álbum de inéditas?

DM: Sim! Na verdade, nosso novo álbum já está gravado. Agora estamos na fase de mixagem, masterização e finalização. Teremos músicas novas ainda este ano, provavelmente não antes da nossa ida ao Brasil, mas um novo álbum está vindo aí. Foi produzido pelo mesmo cara do Tear Me to Pieces, que agora é o baterista do Linkin Park. Meio louco isso, né? Mas ele voltou a trabalhar conosco e vocês vão ouvir falar mais sobre isso muito em breve.

MS: Existe alguma banda brasileira de post-hardcore, pop punk ou até emocore que vocês conhecem?

DM: Não conheço muito as bandas do Brasil. Tem uma artista nova chamada Ecca Vandal que tenho escutado bastante e ela é super badass, com uma pegada punk rock, meio hardcore. Ela é australiana, mas nasceu na África do Sul. Do Brasil mesmo, nenhuma banda me vem à mente no momento, mas adoraria conhecer mais o som daí.

MS: Para finalizar, você gostaria de deixar uma mensagem para os fãs brasileiros?

DM: Estamos ansiosos para voltar ao Brasil e fazer shows incríveis com nossos amigos. Passou muito tempo e pedimos desculpas por isso, mas estou realmente empolgado com esse retorno. Obrigado por continuarem ouvindo nossas músicas. E vamos seguir com isso por mais 20 anos, que tal?