Stephen Lee Bruner, mais conhecido como Thundercat, passou pelo Brasil com sua grandiosa turnê, com shows em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Curitiba. 

Vencedor do Grammys de Melhor Álbum de R&B Progressivo com seu último álbum It Is What It Is (2020). Sua sonoridade mistura jazz, soul, hip hop, R&B, pop e música eletrônica. Além disso, o multiartista fez história com Kendrick Lamar em To Pimp a Butterfly (2015). Disco importantíssimo para o hip hop mundial. 

Em entrevista ao Mad Sound, o músico falou sobre suas influências na música brasileira e sobre os artistas que mais admira, incluindo o brasileiro Pedro Martins, que ficou ainda mais conhecido no ano passado por fazer os arranjos de guitarra na música “NOID”, do álbum Chromakopia (2024), do rapper Tyler, The Creator.

Mad Sound: Como você está se sentindo voltando ao Brasil para finalmente fazer uma turnê solo?

Thundercat: Estou extremamente animado de estar de volta ao Brasil! É uma honra e uma alegria toda vez que eu volto aqui.

MS: Bem vindo de volta!

MS: Sei da sua admiração por artistas brasileiros como Tim Maia e Milton Nascimento. O que mais se destacou para você no trabalho deles?

TC: Uma palavra-chave que vem à mente para mim é a beleza. A beleza em cada composição. Eu acho que isso é muito importante no processo da música. Mesmo quando é muito intenso e complicado, é muito clássico, ou muito informed jazz, mas é muito bonito. E isso é o que mais me chama atenção na obra de Tim Maia e Milton. Sempre bonita. 

MS: Sim, a música deles significa muito para nós!

Encontro com Pedro Martins

MS: Você costuma falar do Pedro Martins com muito carinho. Como o conheceu?

TC:  Eu conheci Pedro Martins por causa do Genevieve Artadi, que é do grupo KNOWER. Eu não sei quantos membros o KNOWER tem agora. Eu preferiria que ainda tivesse dois, mas agora eu sei que tem 7 mil membros do KNOWER (risos), o que é bom. Eu adoro Lewis e Jen. Genevieve me convidou para ver Pedro performando na turnê do álbum VOX (2019), e a primeira música que imediatamente me chocou foi ‘Horizonte’. E eu acho que nesse momento eu percebi que eu não podia escapar da grandeza de Pedro Martins. E essa música é… uma música tão simples mas tão comovente, tão informativa. Eu não conseguia tirar essa música da cabeça, então eu ouvia, ouvia e ouvia, e pensava: “meu Deus esse cara é incrível”! 

E eu acho que também foi um bom momento para perceber que ele queria criar música comigo e que, de novo, as coisas que criamos são muito definitivas para os nossos álbuns, é claro. Sou muito grato pela amizade que construímos desde a primeira vez que nos conhecemos. Acho que nunca falei muito sobre isso, mas o álbum Rádio Mistério, sabe? — desde o meu álbum It Is What It Is até o Rádio Mistério — é como se estivéssemos compondo juntos na mesma época.

MD: Sim, a última música do seu álbum. 

TC: Sim,  são partes da mesma música. A realidade é que o final do meu álbum é o começo do álbum do Pedro. 

MD: Pedro é incrível. Nós temos muito orgulho dele. 

TC: Sim, ele é incrível. Ele é feito de outra matéria (risos).  

“Marcos Vale e Leon Ware formaram o músico que sou hoje”

MS: Sobre “No More Lies”, tem sido uma das minhas favoritas — uma colaboração incrível com o Tame Impala. A letra fala sobre se sentir preso em um relacionamento problemático. Quando você se sente um pouco perdido assim, como costuma lidar com isso?

TC: Só tento não morrer. Porque isso pode te matar. 

MS: Você teve algumas colaborações realmente ótimas nos últimos anos. Tem mais alguém com quem você gostaria de colaborar?

TC: Qualquer pessoa? Hm, há muitas pessoas que eu gostaria de colaborar. Mas, genuinamente, houve muitas vezes em que foram feitas propostas diferentes para trabalhar com coisas diferentes. E agora que estamos falando sobre isso, uma pessoa com quem eu gostaria de trabalhar mais, que me vem à mente… não sei, é algo que simplesmente surgiu na minha cabeça. Sinto que eu deveria trabalhar mais com o Earl Sweatshirt. Bom, estou muito animado para o que vier. 

MS: Algum artista brasileiro? 

TC: Meu Deus, meus heróis são muitos… Essa é uma conversa complicada (risos). Porque eu gostaria de dizer Egberto Gismonti. Eu tenho um bom amigo, B+, ele sempre diz: “Veja o Egberto! Temos que ir vê-lo!” E eu falo: ok, ok, ok, ok. Mas tipo, eu não sei, eu estou muito aberto a essa ideia. 

MD: Marcos Valle, quem sabe…

Claro! Marcos é uma lenda! E eu acho que a maioria das suas composições, assim como o Leon Ware, formaram o músico que eu sou hoje. Eu espero conhecê-lo, eu sei que ele está no Rio. Então é possível. 

Mas a parte engraçada é quando você conhece seus ídolos. Eu acho que deve ser estranho para eles também, porque não sabem quem você é. Quando conheci Milton, ele me perguntou: “Quem é você?” (risos). Eu disse: “Eu amo você, Milton!” E ele ficou tipo… “Hã?”. Conheci muitos músicos na festa dele, músicos que admirei ao longo dos anos. E eu acho que… eu não sei o que o futuro me reserva, mas gostaria de encontrar algo especial.

Eu realmente gosto de colaborar com o Pedro, porque ele representa o que a música deveria ser o tempo todo: linda. Espero continuar colaborando com ele, pois a realidade é que ele me ensina a todo momento, como compositor também.

MS: E sobre novos projetos, um álbum ou outras ideias — você pode nos dar um pequeno spoiler sobre o que esperar?

TC: Eu gosto de manter isso como surpresa. Bem, estou trabalhando. Gosto de talvez surpreender as pessoas. Acho que, por causa do tempo em que vivemos, todos dizem que é preciso fazer um álbum, mas acredito que a vida é maior do que isso, mesmo que a música seja a vida. O tempo entre eles é importante também. Espero surpreender as pessoas.

MS: Isso é importante também, muito bom saber!

Pingue-pongue de perguntas

MS: Ok! Vamos a um rápido pingue-pongue de perguntas. 

MS: Um álbum brasileiro?

TC: Ok, estamos em casa! Minas, de Milton Nascimento. 

MS: Sua trilha sonora favorita de um anime?

TC: Essa é uma boa pergunta! Trilha favorita? “Evangelion”.

MS: O que Kendrick Lamar significa para você?

TC: Incrível. Definitivo. Criterioso. Ininteligível. 

MS: Um fato curioso sobre você que não sabemos?

TC: Eu tenho um Super Mario em um macacão de gato tatuado na minha bunda. 

MS: Qual foi a primeira coisa que você fez depois de ganhar seu primeiro Grammy?

TC: Fiquei bêbado e bati meu carro na casa da minha ex-namorada. Desculpe, Paris. Vou pagar por isso em algum momento (risos). 

MS: Por último, mas não menos importante: Você tem alguma mensagem para seus fãs brasileiros?

TC: Certifique-se de pagar seus impostos. Eu não sei… (risos). Fique fora de confusões! 

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