Good Kid, banda canadense de indie rock, lançará em 03 de abril, seu primeiro álbum de estúdio, Can We Hang Out Sometime?
Apesar de sua fundação em 2015, o quinteto nunca havia gravado um disco completo até o momento, tendo lançado apenas os EPs Good Kid (2018), Good Kid 2 (2020), Good Kid 3 (2023), Good Kid 4 (2024) e Acoustic Kid (2024).
Em entrevista exclusiva ao Mad Sound, os guitarristas David Wood e Jacob Tsafatinos revelaram detalhes sobre o título do álbum, o conceito da capa, inspirações brasileiras e muito mais. Os integrantes, que são programadores, ainda comentaram sobre o uso de Inteligência Artificial na música e se há planos para a banda vir ao Brasil. Leia na íntegra.
Mad Sound: O título Can We Hang Out Sometime? soa muito como um convite casual. De onde surgiu esse nome?
David Wood: Não vou dar spoiler, mas é um verso de uma das nossas músicas. Escrevemos esse álbum ao longo de muitos anos, mas nos reunimos para juntar todas as faixas durante três semanas num estúdio em Los Angeles. Isso aconteceu em um período bem louco. Havia incêndios florestais [em janeiro de 2025] acontecendo e ao mesmo tempo, estávamos tentando gravar um álbum. Era muito caos ao nosso redor todos os dias.
Jacob Tsafatinos: Simplesmente não podíamos sair de casa.
DW: Havia um caos do ambiente à nossa volta das pessoas afetadas por tudo aquilo. Famílias, amigos, nosso produtor e também nós mesmos como banda, fomos afetados. Foi muito estresse e muita pressão que não esperávamos enfrentar. Mas de alguma forma, conseguimos superar isso e gravar o disco. Acho que a principal mensagem com a qual saímos dessa experiência foi a importância da amizade, do amor e de construir relações uns com os outros.
Começamos a perceber que muitas das músicas também tinham esse significado. Muitas delas, que acabamos escrevendo inclusive já no estúdio, se resumiam à ideia de que a vida é estressante e difícil, e que a única coisa que realmente se pode fazer é passar tempo com as pessoas que você ama. E caso você esteja atravessando um período turbulento, a melhor coisa que pode pedir é algo simples como: “Ei, podemos sair qualquer dia desses?” Para mim, essa é a mensagem central do álbum. É quase uma cura para qualquer coisa que você esteja enfrentando.
MS: Uma determinada parte de “Rift” soou como Bossa Nova para mim. Vocês possuem algum artista brasilieiro como inspiração?
JT: Sim, claro! Então, como guitarrista, meu primeiro professor foi um guitarrista de jazz. Não que bossa nova e jazz sejam a mesma coisa. Mas há muita sobreposição entre os dois estilos. Acho que muitas das minhas primeiras influências vieram de guitarristas que misturavam jazz, bossa nova e, às vezes, até um pouco de música clássica. Há muito mais influência latino-americana do que eu notei de quando estava aprendendo a tocar guitarra. E acho que muito disso acaba transparecendo em “Rift”.
DW: Tem um artista, vou pronunciar errado o nome. Acho que é Seu Jorge. Um artista brasileiro de bossa nova. Eu amava a música dele nos filmes do Wes Anderson. Acho que ele fez versões de músicas do David Bowie em um filme [A Vida Marinha com Steve Zissou] dele que eu simplesmente adorei. É a primeira pessoa que me vem à cabeça.
MS: “Coffee”, “Tea Leaves”e “Ginger Lemonade” sugerem algo reconfortante. Há uma temática intencional por trás dessas músicas no disco?
DW: Acho que “Coffee” e “Tea Leaves” falam sobre relacionamentos. Ambas tratam das pessoas nas quais encontramos conforto. “Coffee” foi uma música que escrevi para minha parceira. “Tea Leaves” foi uma canção que o Nick [Frosst, vocalista] escreveu para a dele.“Ginger Lemonade” é uma música sobre a banda. É uma carta de amor do Nick para o resto de nós. Fala sobre envelhecer juntos e continuar fazendo música até que nossos cabelos fiquem grisalhos (risos). Há uma sensação muito acolhedora nas três faixas, o que acho apropriado para um café, folhas de chá e até para uma limonada com gengibre. Essa última talvez seja melhor beber gelada (risos). Mas o gengibre também traz essa sensação de calor e conforto. Acho que é isso que conecta as três.
MS: Qual o conceito por trás da capa do álbum?
JT: A ideia é que a arte da capa represente algo como uma máquina do tempo e há um toca-fitas que funciona dentro dela. Ela foi pensada para simbolizar isso. Há esses personagens no centro da imagem, e o conceito dialoga com o do álbum. Muitas das músicas que fazem o fio condutor do disco falam sobre conexões e sobre as possibilidades dos relacionamentos. Sejam eles positivos, negativos ou qualquer coisa entre eles. A arte também busca representar essas possibilidades infinitas dentro desse mundo ficcional e surrealista. E aqueles personagens que estão no centro vivenciam tudo isso juntos. Acho que essa é a ideia representada ali.
MS: A ideia de inserir um fã no clipe de “Eastside” é muito interessante. Como foi o processo de criar o concurso e integrar a pessoa escolhida na narrativa visual da música?
JT: Isso é meio que um superpoder do Good Kid. Trabalhamos muito próximos dos artistas que participaram do projeto.Temos o Gabriel Altrows, que faz todas as nossas capas e artes. Também temos uma animadora, XrayAlphaCharlie, também conhecida como Xierra, que produz todos os nossos videoclipes animados.Como trabalhamos muito perto deles, conseguimos fazer coisas que não são muito típicas. A Xierra, por exemplo, consegue animar um fã dentro de um videoclipe um dia antes dele ser lançado. Isso é algo que normalmente seria impossível de fazer. Dessa forma, podemos criar um concurso como esse e ter a capacidade de pegar um fã e transformá-lo em parte da história. Isso só é possível graças à proximidade que trabalhamos com esses criadores.
MS: A produção do John Congleton trouxe algo que vocês nunca tinham experimentado durante a gravação dos EPs anteriores?
DW: Sim, deixamos de lado muitos elementos que você estaria acostumado a ouvir em nossas músicas antigas. Nos quatro primeiros EPs, basicamente fazíamos tudo internamente com nosso amigo produtor Crispin [Day]. Sempre podíamos refinar, ajustar e melhorar as faixas. Isso criou um som mais polido. Não excessivamente assim, porém mais estruturado. Com ele foi uma mudança enorme. A abordagem dele à produção é muito mais crua, sem edição e autêntica. Um som realmente bruto e genuíno, e isso era novidade para nós. No começo foi difícil ter que se despedir do Crispin (risos).
Era complicado abrir mão daquilo que você normalmente pode esconder sonoramente. É fácil “limpar” uma bagunça, mas ele [John] adora isso e gosta de sons incompletos ou imperfeitos. Para ele são esses detalhes que tornam a música boa e empolgante. Aqueles momentos em que algo está ligeiramente fora de tom ou certa linha está um pouco apressada. Ele trabalha com o que está acontecendo no estúdio e conseguiu capturar momentos únicos lá que jamais teríamos registrado ou “limpado”. Então, acredito que este disco terá muitos desses momentos de músicas perfeitamente imperfeitas. Elas soam mais espontâneas no calor do momento, se isso faz sentido.
MS: O quanto a cena local canadense moldou o estilo da banda?
JT: Eu diria que pouca coisa (risos). Mas há, sem dúvida, algumas influências canadenses e bandas que amamos. Por exemplo, PUP é uma banda incrível de punk rock de Toronto que nós adoramos e certamente influenciou a forma como toco guitarra. Tokyo Police Club é outra banda que todo mundo parece gostar. Mas acho que muitas das nossas influências são mais amplas. Instrumentalmente, sou bastante inspirado por várias bandas de rock japonesas.Também busco muitas coisas em músicas de animes que ouvia bastante ou com as quais cresci ouvindo. E, liricamente, eu me pergunto. David, não sei quanto a você. Mas sinto que, nesse aspecto, suas influências talvez venham mais de artistas americanos.
DW: Sim. Eu ia dizer que, em termos de Toronto, temos uma estética bem fria. É um lugar muito frio na maior parte do ano. Muitas das nossas músicas seguem narrativas de neve, inverno e escuridão. Acho que isso combina muito bem na composição de músicas. “First Rate Town” fala, por exemplo, sobre se sentir de certa forma preso sob as estrelas e neve. O Nick adora escrever sobre neve por algum motivo que não sei explicar (risos). Acho que em uma a cada duas músicas há algo relacionado à neve. Geograficamente, isso teve um efeito nas nossas letras. Há uma espécie de “terreno” na nossa música, que é bem canadense.
MS: A banda foi fundada em 2015, mas nunca havia lançado um álbum completo até agora. Por que agora foi o momento certo para isso acontecer?
JT: Acho que muito disso é baseado em nós como compositores, para ser sincero. Creio que simplesmente não estávamos escrevendo rápido o suficiente. Antes deste álbum, praticamente toda música que escrevíamos, era lançada e gravada. E à medida que fomos melhorando como compositores e desenvolvendo mais confiança em nós mesmos e uns nos outros, permitiu fazer isso de uma forma mais coesa. Acho que este foi o momento onde decidimos que era algo que queríamos tentar fazer. Nunca tínhamos feito isso antes. Foi desafiador, mas acho que nos impulsionou em uma direção muito boa, nos tornando compositores melhores e melhorando esse ritmo de escrita.
MS: A base de fãs de vocês é conhecida por fazerem muitas animações e fanart da banda. Qual foi a criação que mais chamou a atenção de vocês?
DW: O que você acha, Jacob?
JT: Não consegui ouvir a pergunta, desculpe
DW: Seu sinal está cortando um pouco. A questão é que temos muita arte feita por fãs, e a nossa comunidade interage conosco criando ilustrações inspiradas na banda e nas músicas que escrevemos. Qual delas mais se destacou chamou a sua atenção dentro da comunidade.
JT: Meu Deus. É tanta coisa, sabe? É difícil. Eu faço lives a cada duas sextas-feiras em que eu mostro e comento todas as artes dos fãs. Então eu vejo muita coisa. São quase sempre uns cem slides de artes. É muito difícil dizer o que mais chamou a atenção. Há tanta coisa incrível. Muita arte maravilhosa mesmo.
DW: Eu diria que uma coisa que me marcou foi uma ideia incrível que você [Jacob] teve. Fizemos um concurso de covers em que os fãs enviaram versões das nossas músicas, e nós escolhemos os vencedores. Foi uma das coisas mais difíceis que já fiz na vida (risos).Selecionamos oito ou mais faixas que acabaram entrando em um edição limitada em fita cassete que lançamos.
O mais impressionante nisso tudo foi que haviam interpretações das nossas músicas que eram tão prazerosas de ouvir que eu quase preferi elas ao invés das versões originais que nós mesmos escrevemos (risos). Por exemplo, há uma versão de “Slingshot” lá que é incrível. Há um remix de “Bubbly” feito por um amigo nosso, o Big J. São músicas de altíssima qualidade que as pessoas conseguiram criar com base nas nossas. Quando você escreve as músicas, não há chance de ouvir sua obra pela primeira vez como um ouvinte. Esse foi justamente o momento onde pudemos escutar uma canção nossa sob a perspectiva de outra pessoa. Isso é realmente muito especial.”
MS: Por qual razão vocês decidiram liberar todo o catálogo da banda sem restrições de pirataria e direitos autorais?
JT: A principal razão pela qual fazemos isso é de forma parecida com a comunidade de fanart. Nós também nos vemos como criadores. Eu e o David, inclusive, temos feito muitas lives recentemente. Mas transmitimos na Twitch há anos. A pior coisa de fazer lives é não poder usar música nas transmissões. É muito frustrante. Como nós mesmos participamos dessa cultura, sendo criadores de conteúdo além de músicos, temos uma boa compreensão dos problemas que eles enfrentam. Acho que muito disso vem da vontade de capacitar outros criadores a usarem boa música nas lives, vídeos, ou no que quiserem fazer. isso acabou levando, voltando à pergunta anterior sobre fanart, muita gente a criar obras incríveis e cheias de paixão. Seja diretamente relacionadas à nossa música ou combinadas com ela.
O melhor exemplo disso é a XrayAlphaCharlie, que hoje faz todos os nossos videoclipes animados. Nós só a encontramos pois ela fez uma animação com uma das nossas músicas, mas usando personagens próprios. Não era exatamente uma fanart do Good Kid, mas ela usou a música de um jeito que permitisse criar algo com o estilo dela. Quando vimos aquilo, pensamos: “Meu Deus, isso é incrível”. A animação era fantástica. Então decidimos contratá-la para fazer as animações oficiais da banda. Essa é uma grande parte da razão e da filosofia de permitir que pessoas usem nossa música. Queremos reduzir as barreiras de entrada para que mais gente possa interagir com o que fazemos e criar suas próprias obras a partir da nossa.
MS: Todos vocês trabalham como programadores fora do Good Kid. Como a banda enxerga o futuro da música gerada por Inteligência Artificial?
DW: Como vemos o futuro da IA? Até agora, nada muito promissor (risos).
JT: Não sei se temos uma opinião muito forte sobre isso. Mas, no geral, acredito que todos concordamos que a música é, por natureza, uma experiência humana. Provavelmente vai surgir alguém que descubra uma forma de usar a IA de maneira realmente artística. Mas no momento, parece algo muito comercializado. De um jeito que não soa bem, sabe? Muitos dos artistas de IA que vemos provavelmente são projetos comandados por gravadoras, como uma forma de tentar eliminar a arte em si. E isso não me parece algo positivo. Por outro lado, talvez exista algum garoto que não saiba tocar bateria fazendo música por aí. E ele, por exemplo, usa IA para criar uma parte de bateria depois de compor a canção. Não sei, existe uma linha meio tênue aí. Mas, de modo geral, acredito que a música é totalmente uma experiência humana e deve vir de uma pessoa.
MS: Esse ano vocês farão uma turnê bem extensa pela América do Norte e Europa. Há planos de expandi-lá para a América do Sul?
JT: Espero que sim. Vamos tentar. Adoramos fazer turnês e gostaríamos de tocar na América do Sul. Até agora, só fizemos um show na [América Latina] Cidade do México. Nos divertimos bastante e realmente queremos encontrar uma forma de fazer mais.
MS: Para encerrarmos, vocês poderiam deixar um recado aos fãs brasileiros?
DW: Claro!
JT: Nós amamos vocês! Estamos tentando pelo menos ir a São Paulo. Sei que há muitas outras cidades no Brasil, mas esperamos ter a chance de tocar em pelo menos uma delas nos próximos anos.
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