Ladytron, um dos principais nomes do synth-pop mundial, lançará em 20 de março, seu oitavo álbum de estúdio, Paradises.

O álbum de 16 faixas marca o trabalho mais orientado do grupo para as pistas de dança desde Light & Magic (2002) Para a mixagem, a banda contou com o retorno de um velho conhecido: Jim Abbiss, que co-produziu Witching Hour (2005).

Conversamos com o guitarrista/tecladista Daniel Hunt e a vocalista Helen Marnie sobre o conceito do disco, o que os fãs poderiam esperar, uso de Inteligência Artificial na música, dentre outros assuntos Os músicos ainda comentaram a curiosa relação que a banda possui com o Brasil e se há planos para shows no país em um futuro próximo. Confira na íntegra.

Mad Sound: Vocês acabaram de comemorar os 20 anos de Witching Hour. Voltar ao passado foi essencial para impulsionar a vontade de fazer um disco novo?

Daniel Hunt: Não, isso não aconteceu por causa dos aniversários ou das reedições. Essas coisas simplesmente estão relacionadas a uma questão de cronologia. Começamos a trabalhar no Paradises em 2023. Ele foi finalizado e mixado por volta de março de 2025. Então o lançamento do novo disco não tem, na verdade, nenhuma relação direta com as reedições ou com os aniversários. Isso tudo faz parte do passado. Enquanto nós existimos no presente.

MS: Apesar das origens de vocês como DJs, a banda nunca tinha feito propriamente um álbum de ‘Disco’ até agora. Por que vocês sentiram que agora era o momento certo para abraçar essa sonoridade?

DH: No começo, todos nós éramos DJs. Conheci a Helen porque eu era DJ residente em algumas festas em Liverpool, e ela também tocava lá às vezes. A Mira [Arroyo, tecladista e vocalista], por sua vez, se apresentava bastante onde morava naquela época, em Oxford. Então havia esse elemento desde o início. Eu diria que os primeiros discos que fizemos vieram de uma cena mais próxima de algo como o Stereolab, mas o que nós produzimos era algo adjacente à música de dança. Tinha um componente de disco ali, mas sem ser exatamente música de pista no sentido literal. Fizemos muitos remixes, trabalhamos com muita gente e remixamos muitas faixas de outras pessoas. Sinto que os fios que compõem a banda entram e saem de foco ao longo do tempo. Esse elemento específico ficou mais em segundo plano talvez desde o terceiro álbum [Witching Hour]. Não é exatamente uma reinvenção. É mais como se esse aspecto estivesse voltando a ganhar destaque. Mas é verdade que nunca fizemos um álbum que pudesse ser descrito claramente como algo de “disco music”. Sempre fizemos álbuns com diferentes camadas e influências convivendo juntas. E, sendo sincero, não sei se esse novo disco é isso também. Mas é o mais próximo que já chegamos.

Helen Marnie: É bom ouvir que as pessoas acham isso, gosto disso (risos). Gosto da ideia de que seja assim e que as pessoas possam falar sobre ele. Mas não acho que seja totalmente isso. Como o Daniel disse, há elementos desse universo ali que sempre estiveram presentes.

MS: Vocês trabalharam novamente com o produtor Jim Abbiss. Quais novos elementos ele trouxe para o estúdio?

DH: Produzimos o disco sozinhos, como sempre fizemos. Começamos a trabalhar nele no fim de 2023 e tudo aconteceu muito rápido. Tivemos a sensação de que o álbum praticamente já estava pronto em pouco tempo. Continuamos nos encontrando para gravar vocais em vários lugares, em Liverpool, em Londres, e eu também trabalhava à distância no meu próprio estúdio em São Paulo. Em determinado momento, percebemos que precisaríamos de alguém para mixar o álbum. A questão era em quem realmente poderíamos confiar. A resposta foi imediata: vamos chamar o Jim. Enviei as demos para e ele ficou muito empolgado. Ele disse que queria mixar o disco, mas perguntou se poderíamos nos divertir com isso. Sempre nos falou de como foi divertido trabalhar conosco no Witching Hour, de como se sentia parte da banda, e de tudo o que acontecia no dentro e fora do estúdio. Ele guarda lembranças muito boas dessa época, tanto musical quanto socialmente. Nos disse que queria se envolver de verdade. Entrou como produção adicional e mixagem.

A ideia dele foi reservar o Dean Street Studios, no Soho, em Londres. É um lugar quase sagrado. Foi onde o Tony Visconti teve estúdio e onde produziu o Scary Monsters (1980) do David Bowie. É um espaço especial, cheio de atmosfera. O Jim reservou duas semanas ali para pegar um álbum que basicamente já estava pronto e simplesmente experimentar. Fazer coisas espontâneas, virar algumas ideias de cabeça para baixo. Isso foi muito divertido e teve um efeito catalisador no álbum e na mixagem final. Às vezes, esse é o papel de um produtor. Criar uma plataforma para que o artista possa fazer o que precisa fazer. Não apenas adicionar elementos musicais ou ficar sentado diante de uma mesa de som, mas acompanhá-lo e até protegê-lo em certo ponto. Jim é nosso amigo, então não foi uma escolha difícil. Ele tornou o processo muito fácil de concluir. Quando você se autoproduz, muitas vezes é difícil perceber quando algo realmente está pronto. Ter alguém que simplesmente diga que acabou, que o álbum está finalizado, é tão importante quanto qualquer outra coisa.

MS: Paradises é descrito como “uma praia no fim do mundo, cheia de premonições, preces e encantamentos”. Este novo álbum faz uma previsão otimista sobre o futuro ou está mais relacionado com o fim dos tempos?

DH: Não sei. Na verdade, acho que não é pessimista.

HM: Imagina escrever um álbum sobre o fim dos tempos. Meu Deus (risos). 

DH: Um álbum de disco (risos).

HM: Por qual motivo alguém se daria ao trabalho? Não vale a pena. É o fim dos tempos (risos).

DH: Esse é o ponto. Ninguém iria ouvir (risos). Eu acho que não é um álbum feliz. No geral, ele é emocionalmente bem carregado e em alguns momentos bastante sombrio. Talvez seja até o disco mais obscuro que já fizemos, se você realmente ler nas entrelinhas.

HM: Sinto que você diz isso sobre todos os discos. Parece que a gente vai ficando cada vez mais sombrio (risos).

DH: Mas ele tem um tipo de atmosfera um pouco mais tranquila e eufórica. Mesmo assim, contém todas as coisas que a gente faz e que fazemos bem.Como eu disse, essa sensação de estar no fim dos tempos vive em todos nós. Quem vive hoje tem essa percepção apocalíptica no fundo da mente. Não é algo exclusivamente nosso e não seria algo que colocaríamos conscientemente em um álbum. Vejo este disco como bastante variado em sua amplitude emocional. Ele lida com coisas muito pessoais e também com questões mais amplas e metafísicas.

MS: Dentre as músicas do álbum, “We Wrote Our Names In The Dust” chamou minha atenção por conta de seu título. Sobre o que ela fala?

DH: Bom, ela fala sobre uma experiência da minha infância. Em 1986, aconteceu o desastre nuclear em Chernobyl. Na época não sabíamos, mas toda aquela poeira de césio radioativo veio em uma nuvem sobre o norte da Inglaterra e a Escócia. Como havia um tipo de bloqueio de notícias, não sabíamos de nada. A poeira cobriu todos os carros. Quando íamos para a escola de manhã, escrevíamos nossos nomes nessa poeira branca que estava sobre eles. Só anos depois fomos realmente descobrir do que aquilo realmente se tratava. A ideia da música começou daí, mas ela não é sobre isso. É apenas um escopo visual de como a canção surgiu .Na verdade, isso é engraçado. Você escolheu essa música porque sinto que é a mais brasileira do álbum.

MS: Gravar um álbum entre Liverpool, Londres e São Paulo cria uma diversidade geográfica muito interessante. Existe alguma faixa específica do álbum que nasceu 100% em solo brasileiro? Vocês conhecem e escutam artistas brasileiros? 

DH: Gravamos elas em locais diferentes. “Heatwaves” é instrumental, então não gravamos vocais. Essa música é totalmente brasileira. Eu estou obviamente exposto a muita música brasileira. Não sei exatamente quão exposta a Helen está. É engraçado porque escrevemos “We Write Our Names In The Dust” Eu não percebi isso no começo e nunca tinha ouvido dessa forma. Um dia alguém me falou que soava um pouco como MPB, na melodia e até no tom da voz da Helen. Desde então, sempre que ouço, consigo perceber isso. O álbum como um todo tem muito de São Paulo, mas também tem muito de Montrose [cidade na Escócia] e muito de Liverpool.

.

MS: O Ladytron sempre foi conhecido por sua exploração entre o humano e as máquinas. Com o aumento na criação de músicas feitas por IA, de que forma vocês enxergam o futuro disso dentro da música eletrônica?

DH: Nós odiamos

HM: Sim, não gostamos. 

DH: Somos completamente contra a IA. Sempre que alguém me pergunta, eu digo: Se você está usando IA generativa nas artes, você basicamente já está morto. Simples assim.

HM: Sinto que a única IA com a qual eu provavelmente fico ok é quando se trata de medicina, Acho que essa é a única área em que eu penso: “Ok, faça o máximo que puder, ajude todo mundo.” Mas se ela estiver em todo o resto, eu simplesmente não gosto. O que estamos tentando fazer com a raça humana? Ela vai acabar se tornando obsoleta, como se não fôssemos mais necessários. Realmente não entendo. Qual é o objetivo final disso? Tirando bilionários ficando ainda mais ricos, fora isso não consigo entender. Em relação à música, quero dizer, obviamente ainda não chegou lá, mas é basicamente algo sem alma. Como você pode criar uma música assim?

DH: É inútil. Às vezes eu ouço pessoas dizendo: ‘Ah, talvez a gente tenha que adotar isso’. Não, desculpa, absolutamente não (risos). Isso está ficando totalmente fora de controle. É a extinção da criatividade humana. O que somos nós sem as artes? As pessoas usam aquela analogia de quando éramos mais jovens, a tecnologia iria nos ajudar a fazer os trabalhos braçais para que pudéssemos passar mais tempo escrevendo poemas e fazendo música (risos).  Mas agora é o contrário: você faz os trabalhos braçais, e o computador toda a parte criativa. Isso é horrível. Mas acho que já existe uma reação enorme contra isso. O que estamos dizendo não é nada novo. O problema é que as organizações e os negócios envolvidos, são muito poderosos e fazem lobby junto aos governos. O governo do Reino Unido é fortemente pressionado por big techs e pela IA. Eles deixaram certas coisas passarem sem proteção para as pessoas criativas.Isso é claramente uma luta. Há muita gente envolvida. Mas sim, somos totalmente contra.

MS: A relação de vocês com o Brasil se aprofundou muito ao longo dos anos: começou com as turnês, passou pela gravação do clipe de ‘The Animals’ em São Paulo em 2018 e, mais recentemente, o país entrou no processo criativo do novo álbum. Vocês sentem que o país se tornou uma espécie de segunda casa para o Ladytron?

DH: É uma delas, literalmente. Mas acho que nosso relacionamento com o Brasil vem um pouco mais longe do que isso. Quando começamos e lançamos nosso primeiro EP, lá por 1999 ou 2000, um dos primeiros e-mails que recebemos de fora da Inglaterra foi de um cara do Rio. Foi a primeira vez que tivemos contato com o Brasil. Ele estava em uma banda. Esqueci o nome dele porque contei a história de outra pessoa recentemente. Mas ele estava em uma banda chamada Monokini. Basicamente ele nos escrevia dizendo: “Vocês deveriam vir tocar aqui”. Coisas desse tipo. Descobri alguns anos atrás que ele foi responsável por muita coisa. Ele provavelmente nem se lembra. Mas fez muitas pessoas no Brasil nos ouvirem pela primeira vez. Um influenciador analógico original, sabe? Um formador de gosto, como chamávamos na época. Havia um interesse pelo país. 

Conheci minha futura esposa há 20 anos atrás, que é de São Paulo. Acabei passando muito tempo por aqui. Fizemos nosso primeiro show em 2006, no Nokia Trends Festival. Fizemos algumas aparições na TV. No Jornal do Globo ou Fantástico, algo assim. Foi engraçado porque eu estava andando numa rua dos Jardins e os seguranças me reconheciam. Eles diziam: “Você não é aquele cara que estava na TV ontem à noite?” (risos). Naquela época as pessoas ainda assistiam à Globo, né? Não estavam todas nos celulares vendo reels. Foi tudo bem engraçado. Nosso relacionamento com o Brasil sempre foi meio íntimo e estranho. Também fomos a primeira banda da história a tocar no Cine Joia em São Paulo. Foi a última vez que tocamos lá antes da nossa pausa, em 2011 [que durou até 2018]. Fizemos o primeiro show lá pois o dono, Facundo Guerra, é meu amigo. Então acho que temos que voltar. Acho que esse é o ponto: precisamos voltar.

MS: Falando nessa possibilidade de voltar, vocês planejam fazer isso no futuro?

DH: Bem, se surgir a oferta certa. Espero que seja ainda neste ano

HM: Não consigo acreditar que já se passaram 15 anos (risos).

DH: É loucura (risos). Fizemos uma turnê pela América do Sul naquela época. Tocamos no Chile, Colômbia e Argentina. Mas não voltamos a nenhum deles desde 2011. Então isso agora é uma prioridade. Temos que resolver isso.

MS: De modo geral, o que os fãs poderão esperar de Paradises?

DH: Você chegou a ouvi-lo? 

MS: Ainda não

DH: Está muito bom. 

HM: Achei que você já tinha ouvido, já que sabia sobre a “We Wrote Our Names In The Dust” (risos).

DH: Ah, você não ouviu a música, tinha apenas o título?

MS: Isso! Eu formulei a pergunta com base no título.

DH: Ok. Isso muda tudo. Pensei que você tivesse ouvido, então poderia me dizer se acha que soa como MPB ou não (risos). O que eles podem esperar, Helen?

HM: É um pouco diferente. Meio incomum. Eu diria que é diferente dos nossos discos anteriores, dos mais recentes. E os vocais também estão um pouco diferentes. Ainda sou eu. Mas com um tratamento ligeiramente diferente em várias faixas. Mas acho que as pessoas já tiveram uma boa amostra porque os singles já foram lançados. Elas vão perceber que, assim como você mencionou, as músicas possuem elementos de “disco”. Pelo menos esses singles. Acho  que continua nessa linha. Talvez algumas músicas sejam um pouco mais delicadas.

DH: Vamos lançar mais um single na próxima semana.

HM: Ele é bem diferente dos anteriores.

DH: Bem diferente. Decidimos lançar muitos singles antes do álbum porque ele é muito longo. Sua duração é de 73 minutos, aproximadamente. É o álbum mais longo que já fizemos. Antigamente teria sido considerado um disco duplo. Nos anos 80, eles tinham duração de uns 38 minutos. É praticamente metade deste.Então decidimos lançar muitos singles, para que, na quarta ou na quinta música, as pessoas começassem a entender. Não dá pra fazer isso com apenas duas músicas. As pessoas tentavam adivinhar o que estávamos fazendo, mas não era necessariamente preciso. Talvez o single que lançaremos na próxima semana seja mais uma peça. Mas mesmo assim, ainda não explica o álbum inteiro. Há muita coisa nele: variedade, estilos diferentes e arranjos variados. É basicamente um disco que, do meu ponto de vista como ouvinte, tem muito a ser descoberto.

É o tipo de álbum em que você percebe algo novo depois. Pode haver uma parte que você não notou na primeira audição e que vai perceber mais tarde. Tem muita vida nele. Por isso lançamos assim: um novo single a cada cinco semanas. Achamos que é uma forma mais humana de compartilhar e lançar música. Hoje as coisas acontecem rápido demais. Se você trabalha dois anos em um álbum, não pode simplesmente lançá-lo com um single e pronto. Ele vai desaparecer e as pessoas vão procurar outra coisa no dia seguinte. Não acho isso humano. Mas pelo feedback que recebemos, o público começou a entender e apreciar o que estamos fazendo. O álbum ainda tem muito mais coisas para acontecer.

HM: Sinto que com a forma moderna de ouvir música, as pessoas só focam em ouvir uma ou duas faixas e pronto: “Ah, ouvi o álbum, pronto”. Se ouvirem de novo, vão repetir apenas aquela música. Mas com este álbum, por ser longo, é quase como uma história. Todas as músicas merecem atenção. Cada uma com sua lição. Não é um caso de pegar apenas duas delas e colocar na playlist do Spotify. É um álbum longo e no estilo antigo.”

DH: Basicamente somos da velha guarda. Fazemos e ouvimos álbuns. É o formato que entendemos e sabemos fazer.  É assim que sempre faremos. As pessoas separam o disco em faixas individuais, colocam nas playlists e organizam do jeito delas. Tudo bem, isso é pessoal. Mas do nosso jeito, criamos álbuns para serem ouvidos na sua totalidade. E este aqui, diria que é um disco muito bom para colocar e ouvir do início ao fim.

MS: Para finalizarmos, vocês poderiam mandar um recado para os fãs brasileiros?

HM: Desculpe, qual foi a pergunta?

DH: Mandar uma mensagem para os fãs brasileiros.

HM: Quer mandar, Danny? Já que você fala portugues (risos). 

DH: Oi Galera! Nós somos o Ladytron. Vamos fazer um show aí neste ano. Ainda não está confirmado, mas realmente queremos voltar ao Brasil. Beijos!

LEIA TAMBÉM: Ye Vagabonds fala sobre novo álbum ‘All Tied Together’

Tags:

Estudante de Jornalismo e fã de Rock e principalmente Heavy Metal, gosta de nomes como Judas Priest, Black Sabbath e em especial Iron Maiden, banda que já viu 3 vezes, acompanha desde os 12 anos e sonha assistir um show em Londres. Seu primeiro contato com a música pesada veio ao jogar Guitar Hero e de lá nunca mais parou. Sempre gostou de escrever e tem a música como uma de suas paixões. Dentro do meio, tem Steve Harris, Bruce Dickinson, Rob Halford e Ozzy Osbourne como seus ídolos.