Texto por Camila Pazini
Faz alguns bons anos que Mac DeMarco, sempre introspectivo, tenta se distanciar do título de “fenômeno indie e lo-fi” que o catapultou ao reconhecimento. Não é novidade entre artistas essa ânsia de não se deixar enclausurar em uma caixa; é preciso espaço para descobrir e redescobrir a própria sonoridade. Nos últimos anos, o canadense mergulhou em experimentações e projetos extensos, ousados e instrumentais. Guitar, no entanto, marca um retorno ao tradicional – ainda mais simples, ainda mais confessional. Simples, mas não simplório, vale ressaltar. O disco foi gravado em apenas duas semanas pelo selo do próprio músico, Mac’s Record Label.
Tanto a foto que estampa a capa, quanto a tipografia que carrega o nome do álbum dão um vislumbre antes mesmo do primeiro acorde em “Shinning”: não é algo conceitual, é apenas ele, com sua guitarra, se despindo e contemplando suas questões existenciais.
Apesar de não abrir mão de seu woozy vibrato característico, Mac intensifica a simplicidade sonora nas 12 faixas produzidas. As gravações têm um clima propositalmente desleixado, como se recusassem qualquer polimento excessivo. Nesse cenário, ele se aprofunda na liricidade de sua própria ansiedade: em “Home”, descreve a angústia da reclusão e do isolamento – mesmo quando escolhidos. A alienação de conviver com o próprio inconsciente, as lembranças que insistem em bater à porta, as cartas nunca enviadas de “Knocking”, como ecos de dores passadas. Agruras românticas e existenciais o deixam pendurado no abismo da mente, expondo pensamentos, medos e contemplações. São temas que já rondavam suas canções antigas voltando de uma forma talvez mais madura e sincera.
Mesmo com sua aura de despretensão, o álbum carrega intenções discretas. Uma tosse que surge ao final de uma faixa, o vibrar prolongado de um acorde, pequenos gestos que afirmam sua presença.
é menos sobre impacto imediato e mais sobre permanência: um clima bucólico e moderno ao mesmo tempo, impregnado de melancolia e reflexão.
Esse espírito atravessa todo o disco. Em “Sweeter”, segunda faixa e definitivamente o destaque do disco, existe até um apelo por recomeço, angustiantes com a dosagem de agudos vocais: “dessa vez será melhor, bem mais doce”. Mas até o otimismo se revela ansioso, mesclando resignação, remorso e medo confessado.
O álbum também dialoga, ainda que sutilmente, com outras referências musicais. Em “Nothing at All”, por exemplo, a entonação no refrão “é sempre tudo ou nada” soa como uma conversa velada com o jovem Lou Reed em “Sweet Nuthing”.
Guitar soa como uma master escondida, mesmo que bem produzida. É simples, despretensioso e melancólico como um pôr do sol que se despede para dar lugar à noite escura sem estrelas de uma metrópole. De forma singela, inconsciente ou conscientemente proposital, Guitar é uma ode à simplicidade da música: sem firulas, mas fiel ao propósito. Humano, sensível, deliciosamente imperfeito, desembocando até em uma melancolia resignada misturada com uma pitada de otimismo em “Rooster”.
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