Texto e entrevista por: Vitor Melo

Ye Vagabonds, premiada dupla irlandesa de folk, lançou na última sexta-feira, 30, seu quarto álbum de estúdio All Tied Together.

O disco conta com faixas que fazem reflexões sobre memória e especialmente momentos da vida e do cotidiano dos integrantes. Destaca-se também uma forte presença do conceito de lar e a participação do renomado multi-instrumentista americano Shahzad Ismaily no single “The Flood”.

Conversamos com os irmãos Brian e Diarmuid Mac Gloinn sobre o tema, as principais influências por trás do disco e muito mais. Eles ainda responderam quais artistas brasileiros conhecem e se pretendem vir ao país futuramente. Confira na íntegra. 

Mad Sound: O título All Tied Together passa a sensação de tudo estar conectado. Existe algum tema central que foi o fio condutor desse álbum durante o processo de composição?

Diarmuid Mac Gloinn: Isso meio que surgiu ao longo do processo. Não começamos com um tema definido. Mas conforme as composições avançavam, notamos que as músicas que mais se destacavam e das quais estávamos mais atraídos e empolgados pareciam falar desse mesmo período. Muitas delas estão mais ou menos no mesmo lugar. Dessa forma, existe um tipo de tema solto que conecta várias das músicas do álbum. Mas isso não foi decidido desde o início.

MS: O disco conta com músicas que falam sobre pessoas e locais específicos da vida e cotidiano de vocês  Houve algum cuidado em estabelecer limites sobre o que seria compartilhado nas canções?

DMG: Sim, um pouco. Mudamos os nomes Se algum dia existir, por exemplo, a música “Danny” não fala necessariamente sobre uma pessoa que tenha esse nome. O mesmo acontece em “Mayfly”, onde a pessoa não se chama realmente Mary.

Brian Mac Gloinn: De certa forma, em praticamente toda música, os personagens costumam ser personagens compostos. É uma combinação de algumas pessoas e experiências reunidas em algo único, sabe? Assim fica mais fácil criar uma espécie de resumo da sua vida sobre determinado período.

DMG: Quando você ficcionaliza algo, mesmo se baseando nas suas próprias experiências, é como se uma autoficção estivesse sendo feita. Você quase sempre acaba criando algo parecido, mas que não reflete a realidade exata que as coisas aconteceram. Isso acontece naturalmente. Se fosse para contar a história em seus mínimos detalhes, não seria uma música. Talvez fosse algum tipo de jornalismo ou algo assim.

MS: O significado de “casa” é algo muito presente no álbum. Hoje, com a rotina intensa de turnês, esse conceito mudou para vocês?

DMG: Sim, mudou. 

BMG: Sim, isso aconteceu. E é legal da sua parte ter notado isso pelas músicas também. “Where My Heart Lies” fala um pouco sobre isso. Perceber essa mudança na ideia de lar. E notar que de certa forma, para mim, o lar realmente existe onde quer que eu esteja. Temos um lugar onde ficam as nossas coisas, nossas esposas moram, meu cachorro fica e tudo mais. Isso é casa, com certeza. Mas ao mesmo tempo, uma parte enorme da nossa vida acontece na estrada.

DMG: E precisamos nos sentirmos em casa com esse fato também.

MS: Vocês citam os escritores de ficção George Saunders e Claire Keegan como inspirações. Para os fãs que não conhecem esses autores, qual é o clima que suas histórias trouxeram para o disco?

DMG: Bom, no caso do George Saunders, não foi tanto a escrita de contos dele em si, mas sim um determinado livro: A Swim in a Pond in the Rain [de 2021]. É meio que uma aula-magna sobre escrita de contos. Durante a composição desse álbum, notamos semelhanças entre a escrita de músicas e a de contos. Nós amamos contos. E a Claire Keegan é uma especialista nessa forma. Ela faz isso a partir de um lugar com o qual nos identificamos. Sua escrita se dá a partir de perspectivas e experiências irlandesas. 

BMG: E não só isso. Ela também fala especificamente sobre lugares muito parecidos com aqueles que crescemos. Por exemplo, há um livro dela chamado Small Things Like These [de 2021], que foi adaptado para um filme lindíssimo com o Cillian Murphy [lançado em 2024]. Ele é caracterizado pela forma como as pessoas falam e pelo tipo de linguagem que usam. Está no vernáculo irlandês. E é muito muito próximo de casa para nós. Isso foi uma parte essencial na forma como gostaríamos de escrever as músicas desse álbum. Usar nossas vozes, a linguagem que realmente usamos e poder escrever com nossos próprios sotaques.

DMG:  E dessa forma, capturar uma experiência do dia a dia que é muito familiar para nós. Mas com o trabalho artesanal, você quer elevar isso a um outro nível e não pensa em recorrer a estereótipos culturais. Você quer criar algo. Que no fim das contas, praticamente qualquer pessoa consiga se identificar. Creio que acho que a maneira de fazer isso é justamente permanecer no local que é real para você.

MS: Uma das participações, o Shahzad Ismaily, é extremamente conhecido por trabalhar com sons experimentais e música indie. Como foi trazer essa visão para dentro do universo de vocês?

BMG: Trabalhar com ele foi incrível 

DMG: A gente o conheceu há alguns anos. Viramos amigos antes de tudo acontecer. Tínhamos vários amigos em comum e já conhecíamos algumas das músicas dele. Tivemos essa sensação de que iríamos gostar de passar tempo juntos.

BMG: O Shahzad é daquele tipo de artista que consegue tocar qualquer instrumento. Não importa o que seja. É a forma como ele se expressa e se junta à música dos outros.Sempre tem um foco enorme na canção em. Ele presta muita atenção às letras e a cada detalhe daquilo que está acontecendo. A visão dele é realmente incrível. Já fez muita música boa e muito impressionante. Ele é meio imprevisível. Nunca sabe exatamente o que ele vai fazer no estúdio (risos). É uma pessoa muito divertida. 

DMG: Tem uma energia incrível. É muito agradável ter ele por perto. Muito engraçado, brincalhão, e ao mesmo tempo caloroso. Uma pessoa muito doce de estar junto. Isso é sempre o que você quer dentro de um estúdio. Ainda mais quando se está trabalhando com algo tão sensível. As músicas que você criou com tanto cuidado. 

MS: “We Always Forget About The Rain” traz uma metáfora muito interessante: a que tendemos a esquecer coisas inevitáveis. Ela dialoga com ‘The Flood’, sugerindo que a chuva esquecida no final é a mesma que causa a enchente do começo?

BMG: Isso é brilhante, muito bem observado. Parabéns!

DMG: Na verdade, você poderia não contar isso para mais ninguém? (risos). Você é a primeira pessoa a perceber isso. Mas sim, com certeza. Acho que uma das coisas que eu mais gosto em começar a conversar sobre o álbum é justamente isso. Essas perguntas interessantes e as observações que as pessoas fazem. Isso acaba abrindo os significados das coisas. Percebemos algo que acaba deixando tudo meio circular.  Acho que a questão da chuva é muito sobre uma discussão. E uma discussão é sobre desconexão. É sobre perder a conexão com alguém. Talvez ficar preso demais à própria irritação baseada em alguma experiência que você está vivendo. E com isso, acabar perdendo o senso de conexão existente com alguém, ocasionando numa briga. E o motivo pelo qual as coisas desmoronam na enchente possivelmente seja semelhante. São pessoas que perdem a conexão umas com as outras. A comunidade se desfaz por vários motivos. Alguns fora do controle, como a chuva ou a inundação, por exemplo. As pessoas simplesmente não conseguem mais se sustentar juntas. É um fato infeliz da vida humana que possibilita essas coisas realmente acontecerem.

MS: “The Flood” fala sobre um problema muito sério na Irlanda: a crise habitacional, estou certo?

BMG: Sim, com certeza. É um problema enorme na Irlanda. Meio que dominou as nossas vidas por todo o tempo que moramos em Dublin, sabe? Creio que a abordagem usada por nós foi a seguinte: Jamais começamos a compor pensando “vamos escrever uma música sobre a crise habitacional”. Nunca tivemos a intenção de escrever sobre política. Esse é o contexto dentro de uma comunidade desfeita. Um relacionamento se rompeu e amizades foram destruídas. No fim das contas, você não consegue escapar disso se for honesto sobre a sua vida e a situação em que vive. 

DMG: Se você presta atenção à realidade e tenta retratá-la com honestidade, acaba inevitavelmente sendo político. Ou passa a ser visto dessa forma. A vida conta com essas realidades. São forças além do seu controle. Elas são estruturais e impactam diretamente a sua vida. E, por conta disso, o resultado acaba sendo político. Mas é importante para nós que as músicas continuem sendo pessoais. Elas contam histórias pessoais, envolvem pessoas, sentimentos e indivíduos reais. Nesse contexto, você deve enxergar e ouvir a história através do indivíduo. Mesmo quando ela fala sobre um grupo específico.

MS: O projeto Seven Songs on Six Islands ligou muito a imagem de vocês à natureza selvagem. De que maneira o documentário se relaciona com o novo disco?

BMG: Interessante. Acho que aquela turnê que fizemos naquela época [em 2019], quando viajamos pelas ilhas foi fascinante. De certa forma, aprendemos a fazer turnês de novo, quase que do zero. Foi como ter um recomeço na forma de nos apresentarmos para as pessoas. Percebemos que estávamos indo a comunidades onde às vezes havia apenas 200 pessoas morando lá. Em uma delas,por exemplo, todo mundo foi ao show. A população inteira veio nos ver. Avós, pais, crianças. Pessoas de todas as idades. Eles não conheciam a nossa música e não sabiam as canções que estávamos tocando.Tivemos que tentar nos conectar com eles da forma mais direta possível. Precisamos descobrir uma forma de mostrar a música de modo acessível a eles. De forma que soasse natural. Misturar quem somos, nosso senso de humor e forma de contar histórias com a música que tocamos. Acho que aprendemos muito com aquele período. Nos transformou como banda. Este álbum é uma continuação desses últimos dez anos de música. Aquele momento foi certamente um ponto de virada muito importante em nossa evolução.

MS: Há algum artista brasileiro que vocês conhecem e serve de inspiração? 

DMG: Com certeza! Amamos as músicas da Tropicália. Desde a época em que éramos adolescentes, nos envolvemos muito com Os Mutantes, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee e coisas assim. Aquilo falava muito com a gente. De certa forma, eram pessoas pegando a própria música tradicional, que havia elementos de bossa nova, misturando com rock psicodélico e basicamente, com a música dos Beatles junto.Também foi um movimento que era político, mas sem ser explicitamente assim o tempo todo.

Na verdade, muita da política dessas músicas estava simplesmente em sua existência. O fato de existir uma cultura jovem e das pessoas se expressarem já era um ato radical. Uma forma de resistência à conformidade. Amavamos muito isso, especialmente durante nossa adolescência. Acho que também porque viemos de um país que tem uma história de colonização. Um regime opressor. A Irlanda tem suas canções rebeldes, suas  músicas de resistência. É algo com que conseguimos nos identificar de certa forma. E que sempre respeitamos quando vemos outras pessoas fazendo isso.

MS: Pretendem vir futuramente ao país?

DMG: No momento não temos planos imediatos de ir ao Brasil, mas adoraríamos.

BMG: Sim, a gente realmente gostaria.

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