Texto e entrevista por: Camila Pazini
O que acontece quando integrantes de algumas das bandas mais emblemáticas do post-hardcore se juntam em um novo projeto? O Fiddlehead parece responder bem a essa pergunta desde 2014.
A banda é formada por Patrick Flynn nos vocais e Shawn Costa na bateria, ambos do Have Heart, além de Alex Henery, do Basement, e Alex Dow nas guitarras, e Nick Hinsch, conhecido por trabalhos com Stand Off e Nuclear Age, no baixo. No papel, é o que muita gente chamaria de “banda dos sonhos”, mas, para eles, soa mais como tocar entre amigos, se unir em torno de algo em que acreditam e levar isso adiante.
Com letras reflexivas que exploram o agridoce da vida e sentimentos muitas vezes guardados a sete chaves na psique humana, o Fiddlehead já soma três álbuns e, segundo os próprios integrantes, tem material inédito a caminho, ainda sem data de lançamento.
Embora alguns deles já tenham passado pelo Brasil com outros projetos, esta será a estreia do Fiddlehead por aqui, ao lado do Rival Schools, no dia 22 de fevereiro. A noite no Fabrique ganhou ainda mais peso com o anúncio de Zander e Capote, transformando o show em um encontro de gerações do hardcore e do post-hardcore. Cada um com sua releitura e seu peso, mas todos desaguando na mesma vibe.
Em conversa com o Mad Sound, depois de enfrentar um trânsito inconveniente na volta do trabalho e comer um lanche natural às pressas, Patrick Flynn pediu desculpas pelo pequeno atraso e falou sobre equilibrar dois projetos ao mesmo tempo, sua vocação para ensinar crianças e a relação disso com o hardcore. Também revelou sua admiração pelo Ratos de Porão e confirmou que o burburinho é real: tem música nova vindo aí, e fica a expectativa para saber se ela já aparece no set das apresentações no Brasil.
Mad Sound: Vocês são frequentemente descritos como uma espécie de “banda dos sonhos”, mas tanto o punk quanto o hardcore sempre tiveram essa tradição de músicos transitando entre projetos, tocando em várias bandas e se apoiando ao longo do caminho. Como você enxerga essa dinâmica dentro dos dois projetos?
Pat Flynn: É uma situação interessante. No verão de 2024, decidimos fazer alguns shows novamente [com o Have Heart], ao mesmo tempo em que o Fiddlehead também estava em atividade. Tínhamos um disco para divulgar e estávamos na estrada. Houve um festival na Califórnia chamado Sound and Fury, e o Fiddlehead foi headliner em uma das noites.
É curioso observar a diferença entre os dois tipos de projeto. O Fiddlehead meio que conjura um caos mais gentil, se posso colocar dessa forma, enquanto o Have Heart é o oposto disso. Sou muito grato pelos dois projetos, porque, mesmo com o estilo hardcore mais agressivo do Have Heart, também quero promover uma certa ternura, algo que está ali por baixo, adormecido, presente em cada pessoa que luta contra a própria agressão.
Já com o Fiddlehead, é quase como perturbar a ideia de tranquilidade. Em termos líricos, estamos sempre navegando nessa justaposição de um “está tudo bem!”, quando, na realidade, não está. Temos uma música chamada “Queen of Limerick”, [música do álbum Death Is Nothing to Us] que acho que acerta em cheio essa dinâmica da vida de parecer estar bem enquanto tudo está colapsando e desmoronando. Eu realmente aprecio e gosto do fato de poder fazer parte dessas duas experiências, de ocupar posições contrárias que, no fim, acabam seguindo na mesma direção.
MS: Assim como Milo, do Descendents, alguns músicos do punk, hardcore e post-hardcore equilibram a vida musical com carreiras mais tradicionais ou acadêmicas. Como professor de História, como você vê o estigma que ainda existe dentro do gênero em relação a esse tipo de trajetória?
PF: Acho que faz todo o sentido que pessoas que cresceram na subcultura punk se encontrem, ou queiram se encontrar, em posições dentro da educação ou do ensino. Não vejo motivo para esse estigma de que isso seria “se vender ao sistema”. Muitas vezes, trata-se de ocupar um espaço que também foi negado a elas. Em primeiro lugar, por causa de quem está aprendendo. São crianças, são pessoas jovens.[Pat trabalha como professor de História, lecionando para jovens]
Só posso falar por mim, mas acho que, ao menos olhando para a geração de pessoas como o Milo Aukerman, do Descendents, isso faz muito sentido. A infância e a juventude deveriam ser períodos especiais e acolhedores, se o mundo fosse justo e bom. Para muitas crianças, porém, o começo da vida já é assustador. Quando você é pequeno, percebe que está em desvantagem em relação aos adultos, e isso gera uma sensação constante de vulnerabilidade, de que o perigo pode surgir a qualquer momento.
Em um mundo ideal, pessoas jovens não precisariam passar por certas experiências, mas não é assim que o mundo funciona. E acho que é aí que entra a beleza da cultura punk. Ela pode se tornar um espaço para pessoas jovens que não tiveram a infância que deveriam ter tido, um lugar para tentar dar sentido às coisas e, talvez, reparar parte do que foi quebrado nesse período, seja no aspecto físico, mental ou emocional. Ou, no caso, no desenvolvimento intelectual.
Enquanto eu crescia, fui naturalmente atraído por esse tipo de trabalho, por estar próximo e trabalhar com pessoas mais jovens, justamente por saber o quanto a infância e a adolescência nem sempre são como deveriam ser. O que aprendi com o hardcore punk é que ele pode ser um lugar de reparo do que vem junto com ser jovem. Por isso, quis desempenhar um papel mais direto no ensino. Não me surpreende que outras pessoas da subcultura acabem do outro lado da sala de aula. Há uma boa chance de que, quando eram estudantes, tenham sentido uma perturbação com a forma como as coisas funcionavam. Adultos podem realmente ferrar as coisas, e eu sempre quis ser alguém que fizesse o contrário por pessoas jovens.
MS: O rock, em todas as suas formas, sempre foi associado a excessos, muitas vezes até como parte da própria experiência musical. Como foi seu primeiro contato com o straight edge e de que forma isso se tornou algo que você adotou como filosofia de vida?
PF: Bom, eu ainda sou straight edge e ainda acredito que isso tenha uma força cultural muito grande. Acho que isso acontece porque muitas das pessoas que adotaram esse estilo de vida no início promoviam, ao mesmo tempo, a individualidade. Pessoas como Ian MacKaye, do Minor Threat, e até os primeiros discípulos dessa ideia, como o SSD [banda de hardcore de Boston]. Se você olhar com atenção e ler as letras, eles se preocupavam tanto em incentivar a individualidade quanto em promover um estilo de vida mais saudável.
Isso foi extremamente atrativo para mim. Existiam outras forças culturais emergindo, na religião ou na política, por exemplo, que também falavam sobre um estilo de vida mais saudável, mas nem sempre valorizavam a individualidade. Quando você remove o excesso que costuma acompanhar a música, isso ajuda a focar no que realmente importa. A música, a arte. É aí que o foco deveria estar. Não se trata de festa. É algo que diz: você pode ser você mesmo e, ao mesmo tempo, ter um estilo de vida mais saudável. Esse foco não serve para ser apenas mais um jovem straight edge, mas para criar música, criar arte.
MS: Em uma entrevista mais antiga, você mencionou que não havia a intenção inicial de criar uma trilogia de álbuns focados nos aspectos mais pesados da experiência humana, incluindo o luto. Olhando agora para a discografia de vocês, como você reflete sobre o crescimento lírico, musical e pessoal ao longo desses discos?
PF: Primeiro, é muito bom trabalhar não só com colegas de banda, mas com amigos. Há algo especial no som que eles criam com seus instrumentos. Não sei explicar exatamente, mas quando o Alex Dow, Alex Henery, Nick Hinsch ou Shawn Costa me mandam um riff e dizem “olha isso”, eu sou imediatamente levado por essa onda musical para temas mais sensíveis e universais: morte e vida, alegria e tristeza. Nunca estive responsável pela música desde o ponto inicial. Quando a recebo, meu trabalho é ver para onde podemos ir além, onde podemos encontrar coerência lírica.
MS: Tem rolado um certo burburinho sugerindo que um trabalho que dê continuidade a Death Is Nothing to Us já estaria sendo discutido ou até em desenvolvimento. Isso é verdade ou apenas um rumor? Se for real, tem algo que você possa compartilhar sobre o que vem por aí?
PF: Sim, temos um EP que fizemos no verão passado. Já está gravado e, para mim, são as três melhores músicas que já escrevemos juntos. Há muita similaridade com o que temos feito recentemente, especialmente em uma faixa chamada “Baby, I’ll Change”, que também dá nome ao EP. Estou muito entusiasmado para lançá-lo. Escrevemos essa música em um dia; ela ainda não tinha letra. Contribuí um pouco nas guitarras, passei a ideia para eles, construíram em cima, saí do estúdio, terminamos a letra e voltei para gravar a voz no terceiro dia de gravação.
Sentimos que, organicamente, estamos entrando em uma nova era e isso parece muito certo. Liricamente, depois dos primeiros álbuns, acho que saí de um lugar mais focado em vida e morte e passei a olhar mais para o lado da vida. A faixa-título vale a pena ouvir, embora ainda toque em temas mais pesados, como a dificuldade da mudança. Mostramos para algumas pessoas e todos reagiram com um “uau”. Esse EP é uma transição para o que faremos a seguir.
MS: Será a primeira vez do Fiddlehead tocando no Brasil. Quais são suas expectativas para esse primeiro encontro com o público brasileiro?
FP: Na pouca experiência que tive com o público brasileiro, há quase 20 anos, a impressão foi muito positiva. A energia foi incrível na primeira vez que fui ao Brasil com o Have Heart, em 2007, e ainda maior na última, em 2009 [após esses shows, eles se separaram por um tempo]. Fiquei muito tocado com o quanto as pessoas eram acolhedoras e amigáveis, ainda mais em comparação com outros países. Existe um senso forte de amizade e jovialidade que já fazia tudo valer a pena só de estar ali, naquela atmosfera. Estou animado para voltar. Os shows são intensos e loucos, mas, no hardcore, não existe algo como ‘’muito louco’’. [Nesse momento, ele deu uma risada longa]
MS: Você já teve a chance de explorar ou conhecer a cena brasileira de punk e hardcore? Existem bandas ou movimentos que chamaram sua atenção até agora?
FP: Uma das primeiras bandas de punk e hardcore do Brasil que eu realmente ouvi foi o Ratos de Porão. Eles tocaram na minha cidade natal, New Bedford, Massachusetts, quando eu tinha uns 14 anos, e aquilo explodiu minha cabeça. Era uma força absurda. Quando fui ao Brasil pela primeira vez, entendi por que o Ratos soava daquele jeito. É uma cena incrível. Mas eu sempre quero conhecer bandas novas. Onde quer que eu vá, fico de olho no que está rolando e em como podemos construir pontes através da música.
MS:Como você descreveria sua relação com os públicos ao redor do mundo? Você percebe diferenças claras entre cenas, países ou culturas?
FP: Existe um senso muito forte de amizade na América Latina e na Ásia. Não estou dizendo que na Europa, na Austrália ou nos Estados Unidos isso não exista, mas nesses lugares que citei parece ter algo a mais, um componente extra. Quanto ao Fiddlehead, a gente é muito sortudo de ter um grupo de pessoas que responde à nossa música de forma tão positiva e acolhedora. Eu nunca fico nervoso tocando em um show da banda, porque já sei qual é a energia do público.
MS:Você tem alguma mensagem para os fãs brasileiros que esperaram tanto tempo por esse show?FP: Primeiro, queria pedir desculpas por ter demorado tanto. Segundo, a gente viu muitos comentários dos fãs dizendo “venham ao Brasil, venham ao Brasil”, e isso fez toda a diferença. Ficávamos falando: “cara, tem tanta gente no Brasil querendo ver a gente, a gente precisa fazer isso acontecer”. Então, desculpe pela demora, mas estamos muito felizes por finalmente estar acontecendo. Vemos vocês no dia 22!
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