Em um momento de transformação pessoal e artística, o cantor e compositor britânico Roo Panes retornou ao Brasil trazendo na bagagem não apenas novas canções, mas também um capítulo mais íntimo de sua trajetória. O músico se apresentou em São Paulo, Curitiba e Florianópolis, no último final de semana de março.
Conhecido por seu folk sensível e profundamente introspectivo, o artista vive uma fase marcada por reconexão com o essencial, refletida diretamente em seu mais recente trabalho, o EP Of All The Lovely Things That Be. Gravado de forma caseira, em meio à tranquilidade do interior inglês, o projeto nasce de um período de mudança e contemplação, traduzindo emoções humanas em arranjos delicados e atmosferas envolventes.
De volta ao país após uma sequência de shows marcantes na Europa, o músico deu uma entrevista ao Mad Sound para falar sobre o novo EP Of All The Lovely Things That Be e a conexão com os fãs brasileiros, que cresceu após a música “Lullaby Love” ganhar destaque na trilha sonora da novela A Dona do Pedaço, de 2019.
Madsound: Em 2019, uma de suas músicas mais famosas, “Lullaby Love”, foi trilha sonora do casal protagonista de uma das novelas de maior sucesso recente aqui no Brasil. Você chegou a ter conhecimento disso na época? Isso te deu mais fãs aqui no país?
Roo Panes: Eu sabia, mas não tinha visto. É muito legal ver, porque eu sempre me perguntava, já que as pessoas no Brasil perguntavam e diziam: “Nossa, você sabia?” Eu sabia, mas não fazia ideia de como era. Então, é muito legal ver. Eu adoro quando uma música é escolhida para alguma coisa. É uma sensação ótima, qualquer música que seja, porque você sente que alguém a escolheu como trilha sonora para interpretar uma cena ou algo assim. E também é muito divertido porque você descobre para que eles a usaram. É muito emocionante. Eles podem fazer isso de novo se quiserem.
MS: Seus shows costumam ser descritos como experiências que vão além da música. Dentro dessa proposta mais sensorial e íntima, o que fez esse show e reencontro com o público brasileiro ser especial para você neste momento da sua carreira?
RP: É muito interessante essa coisa de ter a chance de ir além. Porque tudo o que eu posso fazer é subir lá e cantar minhas músicas. O resto é o que acontece, ou não acontece. Eu gosto disso. Adoro isso. Espero muito que aconteça. Mas é, eu tento subir lá e cantar o que criei. E me conectar com o público e, com sorte, vivenciar uma noite especial juntos.
Mas acho que, em termos de vir aqui neste momento da minha carreira, é realmente emocionante, porque faz muito tempo que não atravesso o oceano, por assim dizer, após tantos shows na Europa ao longo dos anos. E é muito bom agora que eu meio que fiz essa transição, de desacelerar por um tempo e agora estou bem pronto para voltar a ser ativo e fazer mais coisas. Então, é bem empolgante. Sinto que é o começo de muitos outros shows por aí. Parece um ótimo trampolim.
MS: O EP Of All The Lovely Things That Be nasceu em um período de mudança pessoal importante, e suas músicas se caracterizam por contarem histórias poéticas sobre situações de seu cotidiano. Pode nos contar alguma situação que inspirou uma das faixas do EP?
RP: De todas as coisas adoráveis que existem, “Be” é provavelmente a mais fácil de explicar, porque essa música surgiu durante a transição da mudança, quando eu estava tentando encontrar um lugar familiar ou um espaço criativo. Isso foi inspirador. Essa música surgiu no caminho de volta para casa, após encontrar esse lugar e pensar: “Ah, que bom”. Eu estava dirigindo de volta para onde morava e a melodia veio à minha cabeça, e eu fiquei com o refrão de “todas as coisas adoráveis que existem”. Tem que ser você quando me vem à mente”. E eu pensei: “Nossa, algo chegou”. Então eu estava tentando me lembrar. Eu cantarolei essa música para mim mesmo durante toda a viagem de carro de volta para casa. E foi aí que meio que percebi que novas músicas poderiam estar a caminho, o que é muito bom. Tudo isso surgiu de um momento comum.
Mas eu também diria que tem uma música lá chamada “Those Ancient Roads”. E essa é um pouco diferente do meu estilo habitual. Mas ela surgiu da leitura de um livro chamado A História do Mundo. E eu só li umas 50 páginas. Era basicamente uma história contada por famílias. Então, cada família, de certa forma, representava a história do mundo. Uma família por geração, entrelaçando tudo. Mas todas as famílias faziam exatamente a mesma coisa.
E, após 50 páginas, eu pensei: “Nossa, estamos fazendo a mesma coisa. Todo mundo está cometendo os mesmos erros de novo.” Ou algo assim. Então eu pensei: “Vou anotar isso. Vou escrever uma música sobre isso”. E eu escrevi “Those Ancient Roads” a partir disso. É como se fosse o ciclo da vida, o ciclo do comportamento, a repetição e coisas do tipo. Isso surgiu depois de eu ficar sentada lendo aquele livro.
MS: Você já mencionou sua admiração pelo Bob Dylan. Se tivesse a oportunidade de transformar uma das faixas do EP Of All The Lovely Things That Beem um feat com ele, qual música você escolheria e porque?
RP: Acho que provavelmente seria “Ancient Roads”. Acho que é muito focada na letra, tem muitas palavras e flui bem rápido. Espero que o Bob goste. Acho que ele também teria algumas boas letras. Então, provavelmente “Ancient Roads”.
MS: Qual música do Bob Dylan você gostaria que fosse uma música do Roo Panes?
RP: Muitas. Eu adoro. Tem uma música chamada “Tangled Up in Blue” que eu amo. E acho que essa música foi muito interessante para mim quando a ouvi pela primeira vez. Porque cada verso fala de um lugar diferente, uma pessoa diferente, uma experiência diferente. E eu não estava acostumado com isso. Eu estava acostumado com músicas que narram uma coisa só. Mas achei isso muito criativo.
E “Don’t Think Twice” é ótima, foi a música com a qual eu meio que cresci. Eu adoro essa música. Acho que, curiosamente, minha música favorita dele no momento é uma chamada “Not Dark Yet”. É uma das mais recentes. Mas o mundo que ele cria, o universo sonoro, é simplesmente incrível. É uma música muito atmosférica e tem um estilo bem diferente de algumas das faixas anteriores dele. E às vezes eu queria ter conseguido criar esse tipo de paleta de texturas, porque é simplesmente linda.
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