Em 11 de dezembro do ano passado, quem foi ao Isaac Stern Auditorium, o principal palco do Carnegie Hall, para ver Cameron Winter sozinho ao piano não imaginava que estava dentro de um set de filmagem. Só percebeu quando viu um homem de câmera na mão circulando entre as fileiras durante “Nina + Field of Cops”. Esse homem era Paul Thomas Anderson. Hoje, quase nove meses depois, o diretor confirmou o que aquela noite realmente era: o registro do longa-metragem Cameron Winter At Carnegie Hall.

O anúncio fecha um mistério que já circulava desde a época do show, quando fãs notaram Anderson operando uma câmera e Benny Safdie auxiliando ao seu lado. Os dois voltam a trabalhar juntos agora como diretor e produtor do filme, que também tem Sara Murphy, Erica Frauman e Maggie Ambrose na produção. Anderson optou por gravar em 35mm e 16mm, um detalhe que diz muito sobre a textura que ele quis captar: menos documentário de turnê, mais cinema.

O repertório da noite veio majoritariamente de Heavy Metal, disco de estreia de Winter como artista solo, lançado em 2024, com as canções reduzidas a versões só de piano e voz. Houve também músicas inéditas. A apresentação aconteceu num momento particular da carreira do músico: Geese, banda em que ele é vocalista, ainda sentia as ondas de choque de Getting Killed, disco de 2025 que consolidou o grupo como um dos nomes mais aclamados do indie rock americano.

O mesmo show virou disco. Live At Carnegie Hall chega em 9 de outubro pela Partisan Records e Play It Again Sam, com produção de Ariel Rechtshaid, que também assina a trilha sonora do filme. Álbum e longa nasceram, portanto, da mesma gravação, mas seguem caminhos de lançamento diferentes.

E é aí que mora a decisão mais interessante de Anderson: em vez de emplacar Cameron Winter At Carnegie Hall direto no streaming ou numa estreia ampla, ele optou por uma turnê de exibições em cinemas de arte pelos Estados Unidos, no estilo roadshow, formato quase extinto que remete a uma era pré-digital do cinema. As sessões começam em 20 de novembro, simultaneamente em Nova York (Village East by Angelika e BAM Rose Cinemas) e Los Angeles (Aero Theater), e seguem até meados de janeiro de 2027 por cidades como Washington, São Francisco, Chicago, Nashville e Portland. Os ingressos entram à venda em 17 de setembro pelo site oficial do projeto. Brasil por enquanto não parece estar nos planos dessa rodada.

A escolha tem peso. Anderson vem de vencer os Oscars de Melhor Filme e Melhor Diretor por Uma Batalha Após a Outra, e já poderia ter levado esse projeto para qualquer lugar mas preferiu tratá-lo como extensão de um histórico paralelo à sua filmografia principal: ele já dirigiu videoclipes para Radiohead, Haim e The Smile, além do curta Anima, com Thom Yorke. Nenhum desses trabalhos entra oficialmente na lista de seus longas, mas todos carregam a mesma escuta atenta ao que a música pede da imagem.

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Nascida na Argentina mas radicada no Brasil há mais de 15 anos, Daniela achou na música sua linguagem universal. Formada em radialismo pela UNESP, virou pesquisadora criativa e firmou seu pé no jornalismo musical no portal Popload e na Rolling Stone Brasil. Gateira, durante a semana procura a sua próxima banda favorita e aos finais de semana sempre acha um bom show para assistir.