Quando me desafiei a escrever uma resenha sobre o show da Rosalia — o meu primeiro show da cantora e o primeiro dela em solo carioca —, fiquei me perguntando o que eu poderia falar sobre esse show que ainda não foi dito.

Desde que estreou a turnê do quarto álbum Lux, em março deste ano, Rosalia vem colecionando críticas sobre seu trabalho mais ambicioso até agora. Há quem tenha certa resistência em dar uma chance para entender um universo conceitual e estético diametralmente oposto ao de MOTOMAMI, álbum antecessor com forte apelo comercial que alavancou a carreira da espanhola em escala mundial, colocando-a como headliner nos maiores festivais de música do mundo, incluindo uma vinda ao Lollapalooza São Paulo em 2023.

Por outro lado, à medida que Rosalía começa a se apresentar na turnê de Lux, uma enxurrada de críticas positivas começa a aparecer nas redes sociais: centenas de carrosséis, vídeos, textos e conteúdos dissecando cada detalhe dos elementos que aparecem nos palcos, do figurino aos visuais. Lux tem sua principal inspiração na espiritualidade, em especial nos signos do catolicismo e dos fenômenos culturais que rondam a igreja, como a arte sacra e barroca, o romantismo, a ópera clássica e o balé.

Do clássico ao contemporâneo

Para cada um desses aspectos tradicionais, Rosalia traz seu olhar contemporâneo: os arranjos de techno em “Berghain”, o momento do show em que simula um confessionário e convida celebridades a contarem seus segredos (a convidada na primeira noite no Rio de Janeiro foi a cantora Marina Sena que, em 2023, chegou a twittar que seu sonho era ser amiga de Rosalia), a dança tradicional espanhola incorporada em um número de balé clássico em “Porcelana”… À medida que o show evolui (foram aproximadamente 2h de apresentação no total), são adicionados novos elementos religiosos, como uma grande homenagem à fé, um sentimento intrinsecamente humano.

@rosaliacentroamerica

Porcelana desde Rio de Janeiro 🇧🇷🪽🤍 #rosalia #luxtour #brasil #fyp @La Rosalia @laltessarini Video de Nat

♬ original sound – Rosalía Centroamérica

Apesar de pretensioso, o universo narrativo de Lux não se apoia em excessos de informação, parafernália tecnológica ou pirotecnia, pelo contrário. O que realmente chama a atenção no palco está em cada detalhe cuidadosamente pensado para estar ali. É incrível pensar que uma artista pop, contemporânea, convide uma ópera para tocar com ela em todos os shows da turnê.

Sagrado e profano se misturam o tempo todo, e a lista de referências é extensa: o figurino incorpora elementos do balé clássico, com sapatilhas de ponta, espartilhos e saias de bailarina em camadas. Véus, terços, cetim e acessórios na cabeça evocam elementos cristãos. Temas inteiros remetem a obras de arte, dos looks às expressões faciais do corpo de baile — como o quadro “El Aquelarre”, do pintor espanhol Francisco de Goya, que aparece durante “Berghain”, o single carro-chefe de Lux, com participação de Björk e Yves Tumor.

Uma aula de história da arte

Durante “La Perla”, um dos pontos altos do show, o jogo de luz e sombra cria uma ilusão de ótica em que só as mãos em luvas brancas envolvem a cantora, guiando-a numa valsa enquanto todo o restante é apagado, evidenciando o busto de Rosalia: nesse momento ela vira a escultura grega Vênus de Milo, esculpida em mármore branco por volta de 150–125 a.C.

Um dos momentos mais marcantes do show é quando ela incorpora a Mona Lisa de Da Vinci: com uma moldura ao redor de si, convida alguns fãs ao palco para dedicar-lhes “Can’t Take My Eyes Off You”, clássico interpretado por Frankie Valli na década de 1960. Na contramão do que a maioria das cantoras pop costuma apresentar em suas turnês, com estruturas de palco gigantes, excesso de luzes, centenas de bailarinos, sensualidade por vezes cansativa, acentuada por roupas de grife, Rosalia se apoia em seu repertório cultural: assistindo a esse show, me senti convidada a entender como Lux foi concebido, quais foram suas principais inspirações. O excesso aqui é totalmente pensado e intencional, como um convite ao público para um momento de pura contemplação da arte.

Voltando à pergunta inicial — “o que eu escreveria sobre o show de Lux que não foi escrito antes?” —, sinto que traduzir a experiência desse show em um texto, em algumas fotografias ou vídeos seria extremamente arrogante e reducionista. Talvez seja essa a grande diferença entre shows e obras de arte: não há descrição capaz de expressar fielmente o que o espectador sente em contato com a obra. É uma experiência sensorial, é o arrepio do topo da cabeça ao dedão do pé que os vocais em “Mio Cristo Piange Diamante” causam. As expectativas já eram altas sobre esse show, mas se superam a cada parte. Em seu primeiro show, Rosalia foi capaz de honrar o sincretismo de uma cidade como o Rio de Janeiro como nenhum outro ato internacional que se apresentou por aqui nos últimos anos ousou fazer — e esse é o grande legado que ela deixa à cultura pop.

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