Em 27 de outubro de 2006, uma cantora londrina de 23 anos lançou no Reino Unido um disco sobre amar a pessoa errada e saber disso. Vinte anos depois, Back to Black continua sendo um dos álbuns mais lembrados do soul contemporâneo.

Capa de Back to Black

Um disco de soul numa época de pop lustroso

O segundo álbum de Amy Winehouse chegou três anos depois de Frank (2003), estreia de inspiração jazzística que a levou a se apresentar em casas de Soho e em pubs de Camden, seu bairro em Londres. Para o sucessor, ela buscou um som mais próximo do soul e dos grupos femininos dos anos 1960. Era fã de The Ronettes, The Shangri-Las e The Shirelles, e levou a melodrama e a grandiosidade desses discos para uma perspectiva pessoal, temperada por humor ácido e cinismo.

O produtor Paul O’Duffy, que trabalhou com Amy em “Wake Up Alone”, em seu estúdio caseiro no norte de Londres, lembra em entrevista à Billboard que ela via o amor jovem como tudo ou nada: a melhor coisa do mundo ou a devastação completa. Para ele, esse tipo de música a atraía porque refletia o modo como ela lidava com o coração.

A gravação aconteceu entre estúdios de Londres e Nova York, com dois produtores à frente: Mark Ronson, DJ e produtor conhecido por dar acabamento moderno ao soul retrô, e Salaam Remi, que já havia trabalhado em Frank. Ao lado de Darcus Beese, executivo de A&R da Island Records, eles ajudaram a reunir músicos e coautores de espírito antigo, entre eles os Dap-Kings, banda do Brooklyn que acompanhava a cantora Sharon Jones, grande influência de Amy. Boa parte do álbum nasceu no Daptone Studios, instalação totalmente analógica. O resultado soa como gravação ao vivo, quente, e ao mesmo tempo atual.

Ronson recordou que Amy “não tinha filtro” no estúdio e rejeitava ideias em que não acreditava. Já o engenheiro de mixagem Tom Elmhirst contou, em entrevista de 2007, que o objetivo em “Rehab” era acertar o sentimento da faixa e atualizar a batida para o rádio sem perder o charme.

Letras sem verniz

A força do álbum está na franqueza. Em “You Know I’m No Good” e “Tears Dry on Their Own”, Amy reconhece os próprios erros sem pedir absolvição. “Rehab” fala em recusar ajuda e virou o maior sucesso do disco. A faixa-título, de clima Motown, descreve a volta a um relacionamento que machucava.

O relacionamento com Blake Fielder-Civil foi uma influência central nos temas de apego e abandono, segundo a Forbes. Em entrevista à revista The List, em 2007, a própria Amy disse que não tinha medo de parecer vulnerável e que escrevia sobre o que não conseguia superar. Cantar sobre isso, explicou, a fazia se sentir melhor.

Na crítica da Billboard na época do lançamento, Kerri Mason o descreveu como “um álbum de separação sincero e brutal”. Ela elogiou Ronson e Remi por captarem o amor de Amy pelo soul, pelo doo-wop teatral e pela Motown.

Cinco Grammys e um rosto de espanto

Em fevereiro de 2008, “Rehab” levou o Grammy de Gravação do Ano, e Amy saiu da cerimônia com cinco prêmios, incluindo o de artista revelação, acompanhando a premiação de Londres. As imagens do momento em que ela entende que ganhou, imóvel, em choque, circulam até hoje. O álbum havia chegado aos Estados Unidos cerca de cinco meses depois do lançamento britânico, segundo o Stereogum, e chegou ao 2º lugar da Billboard 200.

O sucesso veio com um custo público. A atenção da imprensa sobre sua vida pessoal foi tão intensa que, em 2009, ela conseguiu na Justiça britânica uma liminar contra fotógrafos que a perseguiam. Amy morreu em julho de 2011, aos 27 anos, por intoxicação alcoólica. A discussão que se seguiu sobre cultura de celebridade e exposição continua atual.

A reedição de 20 anos

Anunciada pela Universal Music em 25 de agosto, a reedição chegou em 23 de outubro, em vinil, CD e formato digital. O pacote principal, em três discos, reúne o álbum original, quatro lados B pouco comuns, quatro demos inéditas e o show completo de 2007 no Paradiso, em Amsterdã, que, segundo a imprensa, nunca havia saído na íntegra em vinil nem em streaming. Entre as demos estão versões de “You Know I’m No Good”, “Me & Mr Jones”, “Back to Black” e “Love Is a Losing Game”. Há ainda edições limitadas em vinil: uma com padrão “chalkboard marble” e outra no formato zoetrope, que produz um efeito de animação com imagens de Amy enquanto o disco gira. Fotos inéditas de Mischa Richter e Alex Lake e novas notas de Ronson e Remi completam o material. Remi lembrou Amy como “uma artista única”, e Ronson resumiu o espanto de ver o disco ainda vivo: para ele, é incrível que seis músicas feitas “num acesso de paixão musical” importem tanto vinte anos depois.

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Nascida na Argentina mas radicada no Brasil há mais de 15 anos, Daniela achou na música sua linguagem universal. Formada em radialismo pela UNESP, virou pesquisadora criativa e firmou seu pé no jornalismo musical no portal Popload e na Rolling Stone Brasil. Gateira, durante a semana procura a sua próxima banda favorita e aos finais de semana sempre acha um bom show para assistir.