Aos 19 anos, a cantora e compositora tcheca THERA já subiu em arenas europeias, mas o nome ainda é pouco conhecido do público brasileiro. Ela foi atração de abertura da turnê europeia de Jason Derulo, encerrada na O2 Arena, em Praga, e antes abriu shows da vencedora do Eurovision Loreen em cidades como Londres, Manchester, Dublin e Zurique. O som tem atmosfera sombria, com synths, batidas de inspiração hip-hop e letras escritas a partir da vida pessoal.

A estreia em disco foi recente: o álbum I Wish I Called saiu em setembro de 2024, quando ela tinha 17 anos. O sucesso veio com “Guardian Angel”, que passou de 1 milhão de streams no Spotify, somou mais de 8 milhões de visualizações no TikTok e entrou nas playlists New Music Friday e EQUAL. Pelo programa do Spotify, THERA tornou-se a primeira embaixadora tcheca do Global EQUAL e apareceu em um outdoor na Times Square, em Nova York. Somando todas as plataformas, passa de 12 milhões de streams.

Para quem ouve o nome pela primeira vez, a explicação está na própria artista. Ela nasceu Cristina Davidova e sabia que ninguém conseguiria pronunciar ou escrever o sobrenome do jeito certo. THERA vem de terapia (therapy): desde pequena, diz ela, a música é o seu jeito de lidar com tudo, seja escrevendo ou só ouvindo. O nome surgiu em uma roda de conversa e ela soube na hora que era aquele. Ela sabia que todo mundo iria pronunciar seu nome errado e assim adotou o novo nome artístico.

Essa origem íntima aparece em tudo o que escreve. Toda a música de THERA parte de experiência pessoal, e ela compõe primeiro para si mesma. Só depois decide se vai lançar. “Guardian Angel” nasceu de um primeiro amor que já não faz parte da vida dela, e hoje tem outro destinatário: os fãs, que ela chama de anjos da guarda “em algum sentido”, porque são a razão pela qual faz música. A cantora ainda se surpreende com o alcance da faixa. Lembra de estar em um ônibus de turnê e ver um número no Spotify passar de 999 mil para um milhão. Pessoalmente, gosta mais de outras canções do repertório, mas diz estar feliz com o que essa fez pelas pessoas que a ouviram e que pretende tocá-la por muito tempo.

O capítulo atual se chama “Heartless Romance”, primeira amostra do segundo álbum que ainda não tem data de lançamento. A faixa foi escrita com o produtor Jakke Erixson, que tem David Guetta, Charli XCX e Ava Max no currículo. Fala de duas ou mais pessoas que não são amigas, mas também são menos que amantes: a química é intoxicante, e é por isso que se volta. A leitura de THERA, porém, é mais leve do que muita gente faria. Para ela, a música não é tão negativa. Foi escrita com a ideia de se divertir e de ter alguma liberdade, com energia de pista, de quem se perde na dança. Existe também uma versão nova, mais triste, que mostra o lado oposto da história.

A dança, aliás, é novidade na carreira dela. O clipe, dirigido por Adela Markova e Jakub Hudlický, com coreografia de Adela, é um passo que THERA queria dar havia muito tempo e que a assustava. Ela não se considera dançarina profissional: fez aulas, treinou sozinha e brinca que não está no nível de Tate McRae. Treinou durante o verão, gravou com quatro dançarinas e descobriu, em um único dia de filmagem, quantas vezes é preciso repetir uma seção até ela funcionar. Está orgulhosa do resultado.

Em cima do palco, a rotina também exigiu preparo. Para a turnê com Derulo, teve cinco semanas para se preparar física e mentalmente, com a voz trabalhada todos os dias. Ao mesmo tempo, cursava o ensino médio: depois de duas semanas de shows, voltou a Praga para fazer provas simuladas e só então retomou a estrada. Nos concertos, repetia a si mesma uma regra: aproveitar, porque momentos assim não acontecem muitas vezes. A banda, toda tcheca, ela descreve como irmãos e uma família próxima.

Há ainda um orgulho que vai além da carreira. Quando THERA cresceu, os artistas tchecos mais conhecidos cantavam em tcheco. Depois que começou a lançar, conheceu outros nomes do país que cantam em inglês. Em duas semanas no Reino Unido, muita gente perguntou onde ficava a República Tcheca, e ela respondeu que isso precisava mudar. Representar o país, diz, é algo que adora, e levar um pedaço de casa para cada lugar é parte do jeito de fazer isso.

Ao fim da conversa com a Mad Sound, veio o recado que interessa a quem acaba de conhecê-la: “Definitivamente quero ir em breve para o Brasil”. A distância é grande, ela sabe. A vontade, pelo menos, já está dita.

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Nascida na Argentina mas radicada no Brasil há mais de 15 anos, Daniela achou na música sua linguagem universal. Formada em radialismo pela UNESP, virou pesquisadora criativa e firmou seu pé no jornalismo musical no portal Popload e na Rolling Stone Brasil. Gateira, durante a semana procura a sua próxima banda favorita e aos finais de semana sempre acha um bom show para assistir.