Texto por: Camila Pazini

Agora sob a produção do premiado Andrew Wyatt e estreando com o pé direito pelo selo Partisan Records, após anos tendo como casa a Matador, o Interpol mostrou em seu novo trabalho, This Mirror Weighs a Ton, que, apesar de operar sob a mesma fórmula, ainda encontra espaço para extrair nuances de suas próprias rachaduras. O apelo do álbum surge como um contraste singelo sobre uma parede cinza: críticas sociológicas ao uso desenfreado e antiético da inteligência artificial dividem espaço com a alienação e a solidão contemporânea. O som permanece fresco, ainda que profundamente nostálgico, equilibrando uma essência dançante com uma atmosfera melancólica e soturna, enriquecida por fade-ins sinfônicos e por arranjos de cordas.

O peso por trás do título

Adentrar em This Mirror Weighs a Ton é como olhar através das trincas de um espelho, como o próprio nome sugere. O que é essa carga? O peso da exposição? A gravidade do sucesso? A bagagem da maturidade? Talvez um pouco de tudo, ou até de nada. A mente artística por vezes é mais associativa do que simbólica. A moldura característica continua lá, assim como o vocal hipnótico de Paul Banks, que divide os microfones com Daniel Kessler em momentos pontuais. A estética de vigilância sufocante que estampa o disco é, na verdade, a obra “Asymmetric Love Number 2”, criada pela artista Addie Wagenknecht em 2013, mas que já parecia prever o exibicionismo nas redes digitais e na dinâmica social das próximas décadas. A composição da peça brinca exatamente com a semiótica, deixando as câmeras na mesma forma de um lustre. E, se formos um pouco mais longe na interpretação, dá até para dizer que a banda tem a poeira nos dedos após folhear o clássico de Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray, mas sob uma roupagem futurista e ressignificada. O novo hedonismo não se traduz mais em excessos boêmios (tema muito presente nas canetadas de Banks), mas no culto à vida saudável e à estética irretocável. Enquanto as telas exibem o filtro perfeito, o quadro real, a vida como ela é, carregada de marcas e imperfeições, aguarda no quarto, no escritório ou até no estúdio. Por trás dos bastidores.

Ao questionar-se do que exatamente precisamos acordar, o grupo aborda o torpor em meio a um cenário de violência simbólica, armamentismo e lentes constantemente ligadas. Músicas como a faixa-título e “Iron City” exploram essa densidade temática, enquanto composições como “Wounded Soldier” e “So Rides The Reindeer” quebram a atmosfera habitual ao incorporar elementos eletrônicos e instrumentações pouco usuais em sua discografia. Em contrapartida, canções como “Wake Up” nos convidam para dançar diante desse mesmo espelho, ainda que os reflexos sejam menos espalhafatosos do que os clarões de uma pista tradicional.

Novos arranjos, mesma identidade sonora

Musicalmente, o registro expande as fronteiras sonoras do quarteto ao introduzir recursos inéditos em sua trajetória. Arranjos cinemáticos de cordas, flautas e metais somam-se a sintetizadores marcantes, criados sob a batuta de Wyatt, gerando texturas eletrônicas densas por trás do pós-punk habitual. Pela primeira vez na carreira dos nova-iorquinos, o violão ganha protagonismo estrutural, servindo de base para a já citada “So Rides the Reindeer”. O piano também assume papel central em baladas como a derradeira “Sudden”, onde Daniel Kessler gravou o instrumento de forma orgânica na sala do produtor, capturando até o som de pássaros ao anoitecer. Soma-se a isso o uso de percussão variada, como bongôs e o glockenspiel presente no single principal, além de um design de som experimental repleto de distorções e ruídos abstratos que ditaram o ritmo das interpretações vocais de Banks. Outras músicas como “See Out Loud”, “Wings of Fire” e “Enemy” também se destacam em meio às doze faixas do novo trabalho, que mantém o equilíbrio entre o dançante, o atmosférico e a melancolia.

Uma releitura sóbria do próprio passado

Aqui, o ponto central não é revolucionar a identidade da banda, mas incorporar e amadurecer algo que já estava ali. Uma releitura sóbria do próprio passado. A densidade das relações humanas e a força das guitarras do Interpol continuam lá, garantindo que nada pareça drasticamente destoante do que os consagrou. No entanto, quando a luz adentra a penumbra, revela cadências inéditas e novas camadas. O grupo não tenta apagar suas marcas; ele simplesmente nos convida a encará-las no reflexo, e não é à toa que o novo trabalho se destaca, sendo comparado com outros clássicos consagrados dos nova-iorquinos.

LEIA TAMBÉM: O Que Há de Novo? Ouça os lançamentos de Alabama Shakes, Interpol, The Linda Lindas e mais

Categorias: Editorial Notícias