O segundo dia de C6 Fest foi marcado por shows plurais e inesquecíveis na Tenda Heineken. A proposta do festival limita o acesso às atrações vendendo ingressos separadamente por palco, o que faz com que cada um dos quatro tenha seu próprio festival acontecendo.

Enquanto a Plateia Externa curtiu uma noite de música eletrônica com Model 500 Live by Juan Atkins, Kraftwerk e Underworld, o espaço Pacubra Tokyo teve sua própria festa, ainda bastante vazia no início da noite, com Femine Hi-fi, Festa Luna e Pista Quente.

A grande magia da noite de sábado, porém, aconteceu na Tenda Heineken. Com estrutura surpreendente, ambientação aconchegante, palco alto e som nítido, as quatro atrações principais proporcionaram uma noite rica em sons e diversidade de culturas, com artistas dos cantos mais variados do globo.

Blick Bassy foi quem abriu esse palco, às 17h. O artista é de Camarões e canta suas músicas no dialeto Basaa. A atmosfera encantadora e hipnotizante do show trouxe para o palco do C6 Fest um pouco do ritmo jongo e canções imersivas de diversos ritmos, apoiadas pela bateria eletrônica, teclados e trombone. O artista também já fez músicas inspiradas na bossa nova e tocou com Lenine. Para ele, Brasil e Camarões compartilham laços que vão desde o brutal passado escravista até a riqueza cultural e o amor pela música e futebol.

Às 18h, a Tenda Heineken tremeu com o tamanho do espetáculo comandado por Russo Passapusso, BNegão, Kaê Guajajara e Nomade Orquestra. Em um show igualmente político e divertido, foi impossível ficar parado ao som de sucessos como “(Funk) Até o Caroço” e “Essa É Pra Tocar No Baile”, intercalados com momentos de emoção pura com os vocais poderosos de Kaê Guajajara.

Em meio à performance, a cantora fez um discurso lembrando a violência contra os povos indígenas e a resistência que ainda persiste. “A gente tem um índice muito alto de um grande genocídio que aconteceu nessa terra e a gente continua achando que tá tudo bem viver em um território roubado. Não está tudo bem. A gente continua usando de táticas de sobrevivência, como estar em um festival como esse, pra comunicar a você que não está tudo bem. Nós continuamos resistindo e queremos que vocês continuem do nosso lado,” disse em meio a aplausos.

Todo o repertório dos artistas foi preparado especialmente para essa performance no C6 Fest e o resultado foi um show de energia tão alta que ninguém queria que acabasse. Além dos três vocalistas principais, a Nomade Orquestra brilhou imensamente com arranjos ricos e momentos de solo instrumental fazendo uma verdadeira festa animada com elementos de funk e jazz. A performance completa foi uma das melhores da noite e quem esteve lá presenciou um momento inesquecível.

Em seguida, Mdou Moctar impressionou o público com sua habilidade na guitarra. O músico tuaregue veio ao Brasil pela primeira vez com sua banda em turnê com o álbum Afrique Victime. No palco, os músicos fazem uma mistura de rock psicodélico com uma variedade de outras referências musicais vestindo roupas árabes e cantando na língua tamacheque. Os vocais aparecem pouco, abrindo mais espaço para Moctar mostrar sua habilidade impressionante na guitarra. O som autêntico de Mdou Moctar é inspirado parcialmente por Jimi Hendrix e Eddie Van Halen, mas enraizado fortemente nas tradições musicais tuaregues e no blues. O som do palco estava mais alto que o de outros artistas, fazendo com que a música reverberasse até certa distância da Tenda Heineken. 

Provando-se um headliner mais que acertado para a segunda noite de C6 Fest, Jon Batiste encerrou a noite da Tenda Heineken com um show do qual era impossível desgrudar os olhos. Com o palco lotado de músicos, a performance enérgica mais parecia uma grande festa. A percussão foi comandada pela brasileira Nêgah Santos e o show se iniciou com um samba apresentado pela banda antes de Batiste entrar no palco. O encerramento teve a participação ilustre de Lia de Itamaracá.

Junto à alta energia de seus músicos e suas dançarinas, Jon Batiste é uma força da natureza no palco. Ele sorri, faz contato visual com a plateia, participa da festa junto com o público e comanda a banda inteira em momentos de improviso, construindo espaços para que cada músico tenha seu momento individual de brilhar. Além da voz impressionante, Batiste toca piano, saxofone e guitarra, montando um show com o melhor do jazz, soul e funk americanos. Vencedor do Grammy de Álbum do Ano por We Are (2021), ele nos faz pensar que sua música, na verdade, é feita para ser experienciada no ao vivo, vendo o espetáculo acontecer em frente aos nossos olhos e conscientes do número de pessoas envolvidas em seu trabalho.

Foi impossível ficar parado na noite de sábado do C6 Fest com o tamanho das atrações que encheram o palco Tenda Heineken. Apesar da line-up de qualidade, a divisão de ingressos por palco torna o festival pouco acessível financeiramente e restringe grandes artistas a públicos menores. A curadoria, entretanto, se mostrou impecável na noite de sábado, e quem estava presente teve a oportunidade de prestigiar shows dos mais diversos ritmos e artistas em uma experiência culturalmente enriquecedora. 

Confira a nossa galeria de fotos tiradas por Marcela Lorenzetti:

LEIA TAMBÉM: C6 Fest começa com boas energias de Arlo Parks e teatro visceral de Christine and the Queens

Tags:
Categorias: Notícias Resenhas